Sobre a vergonha
Eu bem que gostaria de começar o meu texto citando Platão. Seria uma boa maneira de abordar a vergonha enquanto manifestação do comportamento humano. Disse bem, comportamento hu-ma-no! No entanto, tornou-se um pouco banal citar os consagrados filósofos e a internet virou palco de citações imprecisas ou fora de contexto. E como o bom exemplo deve vir “de cima”, pelo que se anda falando de Aristóteles, por exemplo, é melhor tomar outro caminho para não passar, justamente, vergonha. Na dúvida, é mais prudente utilizar a sabedoria popular, pois “quando há muitos palhaços no picadeiro, a lona do circo cai”.
A República
Já que falei em filosofia, fica a dica para o leitor – e para mim mesmo: ler a obra “A República”. Platão defendia a tese de que a vergonha fazia parte de uma psicologia moral, associada ao que chamava de “divisão da alma”. Para o filósofo, o sentimento da vergonha estava relacionado à moderação e à justiça, ao despertar no indivíduo uma força que o impediria de ceder aos impulsos mais destrutivos, através do medo do ridículo ou da perda da dignidade. Desta união entre a vergonha e a justiça, fez surgir o mito da origem da civilização.
Moral
No Brasil da atualidade já vimos de tudo, ou quase tudo. Não vou citar nomes para não me complicar com aquilo que chamávamos de Justiça. Tivemos o médium que abusava sexualmente de pessoas espiritualmente vulneráveis, o ginecologista que estuprava as pacientes em tratamento de fertilização e tantas outras “autoridades” que, na ausência de vergonha ou de humanidade, cometeram crimes gravíssimos. O espiritismo e a medicina seguiram seus caminhos inabalados. Agora, o que dizer sobre o que se passa naquela que seria a última instituição brasileira a ser desacreditada? Quantos de lá estarão comprometidos moralmente? Como fazer para recuperar a credibilidade? Não se trata apenas de “estar acima da lei”, mas de termos a consciência de que este comportamento joga contra a civilidade e pode ser mais ameaçador que uma tentativa de golpe de Estado.
O sentimento
Não me recordo de quando senti vergonha pela última vez. Na idade adulta, senti muita raiva, é verdade, mas não lembro de ter passado vergonha. É certo que não fui um sujeito incapaz de cometer algo passível de censura e, por consequência, de me envergonhar de algum ato banal. Não sou hipócrita. Mesmo assim, tento imaginar quais seriam as minhas reações se me pegassem na mentira. Pedir desculpas, certamente. Arrependimento? Com certeza. Fingir que nada aconteceu, insistir na mentira, dizer que era um clone ou criação da inteligência artificial, nada disso apagaria o sentimento interno, tipicamente humano. Notem: até os cães sentem vergonha.
Desumanidade
Acredito que o grande erro da humanidade seja justamente tratar com igualdade e esperar reciprocidade daqueles que, de humano, só têm o corpo, mas, em verdade, não são seres humanos. Foi assim com Hitler e com tantos outros egocêntricos que se sentiam acima do bem e do mal. Se a vergonha é um sentimento que não faz parte do psiquismo destes exemplares, fica muito difícil conduzir as questões de forma justa, republicana e moderada. Prisão, pena de morte, olho por olho? Tudo isso nos faz caminhar para trás, no sentido de nos tornarmos primitivos. Não podemos aceitar que o ego de alguns ponha em risco anos e anos de evolução da nossa espécie e sociedade. Se não sentem vergonha, é porque talvez não ofereçamos ameaça suficiente aos egos majestosos desses sujeitos. É preciso repensar o conceito de humanidade e afastar do convívio social quem não partilha deste sentimento universal. Triste é saber que só iremos tomar alguma iniciativa quando estes falsos humanos terminarem o serviço ou estiverem mortos.