As perspectivas para o cultivo do trigo na região não são animadoras. Isso porque o excesso de chuva vem trazendo preocupação aos produtores que planejavam investir no grão. No Estado a Emater realizou um levantamento há 15 dias e registrou uma prospecção de 6,49% de redução da área plantada.
Diante das condições climáticas desfavoráveis neste mês, com excesso de chuva, pode ocorrer uma queda mais significativa no plantio. "A área plantada de trigo pode reduzir ainda mais, diante dos prejuízos no solo. No ano passado foram plantados mais de 778 mil hectares e neste ano, mais de 727 mil hectares. Muitas propriedades não conseguiram preparar o terreno, fazer a dessecação para eliminar a soja, a aveia, o azevém. Agora são necessários no mínimo três dias consecutivos de sol para os produtores conseguirem trabalhar novamente", explica o Assistente Técnico Regional da Emater, Cláudio Doro, citando ainda, que muitos produtores vão plantar somente nas áreas mais altas, sendo que nas regiões mais baixas, há muita água acumulada.
Impacto no solo
De acordo com Cláudio, para o solo a situação está muito complicada, pois muitas áreas estavam descobertas após a recente colheita da soja e do milho. Diante disso, a erosão prejudicou a camada superficial que é a mais fértil e possui concentração de calcário, matéria orgânica. "Muitas propriedades não realizam as práticas de conservação de solo, o que aumenta os prejuízos. Os produtores que organizaram o trabalho terão que investir novamente", pontua.
Ao fazer um paralelo com o mesmo período do ano passado, Cláudio lembra que foram registradas seis geadas, enquanto nesse ano, ocorreu uma e o mês de junho caracteriza-se por tempo nublado e alto índice pluviométrico, sendo que ocorreram chuvas acima da média. "Os prejuízos afetam vários setores, pois o agronegócio é um dos principais responsáveis por aquecer a economia", reitera.
Reflexo na soja
Conforme o engenheiro agrônomo, a preocupação é antecipada também em relação ao futuro plantio da soja. "Isso já nos direciona para um plantio de trigo tardio, sendo que a colheita pode ocorrer no final de novembro e consequentemente pode trazer prejuízos ao plantio da soja, considerado o mais rentável", comenta.
O produtor erechinense, Nelcir José Tomazelli (53), demonstra preocupação diante do cenário atual e já cogita mudanças no planejamento. "A situação está difícil, já deveríamos ter começado plantar o trigo, mas em razão dessa umidade, não há condições. Estou com uma área dessecada há quase 30 dias e estimava cultivar uma área de aproximadamente 40 hectares. No entanto, já cheguei a pensar em não plantar e investir na aveia branca", declara.
No ano passado Tomazelli contabilizou um prejuízo de quase R$ 400 por hectare de área plantada de trigo.
Para o produtor, outra expectativa é que o preço melhore, pois o preço repassado está muito barato e acaba sendo inviável o cultivo, levando em conta todo o investimento realizado. "Atualmente consideramos mais para a rotação de cultura", comenta, salientando que toda a cultura de inverno é um risco muito grande e a situação também pode causar atraso no plantio da soja.
Técnicas que potencializam o cereal
Na opinião do supervisor técnico da Cooperalfa, o engenheiro agrônomo Juliano Mezzalira, mesmo que o período de zoneamento ainda não tenha acabado, não restam dúvidas quanto ao atraso no plantio do trigo o que posteriormente causará atraso do plantio da soja, sendo esta, a principal preocupação. "As projeções são de muita chuva e é fato que devemos adentrar julho com o plantio de trigo. Sendo assim, é fundamental nesse momento, buscar a eficiência das técnicas agronômicas, entre elas, a profundidade de plantio e a densidade adequada para cada cultivar da região. Além disso, é importante o uso de sementes de alto vigor e poder germinativo", explica.
Mesmo com tantos desafios no cenário do trigo, os quais podem provocar desinteresse por parte de alguns produtores, Juliano reforça que o cereal merece uma atenção especial. "É válido entender que nem tudo é 'simplesmente trigo'. Por isso é fundamental segregar e trabalhar com cultivares específicas para cada mercado, além de identificar o potencial para massas, pães e outros produtos", acrescenta.
Outros grãos
Na cevada a situação é ainda mais complicada, sendo que neste período, tradicionalmente o cereal já estaria crescido. "Na região praticamente a plantação ainda não ocorreu. Já os produtores que tentaram plantar, acabaram registrando perda. Os prejuízos também se estendem ao feijão e à canola", destaca.
Citricultura
Devido ao excesso de chuva na região, foi registrado em torno de 10% de perdas nas áreas de cultivo de frutas cítricas. Segundo o Assistente Técnico Regional da Emater, Ivan Guarienti, o clima ocasionou uma série de problemas, entre os quais, rachamento e queda de frutos, tanto no que se refere à laranja, como também, de bergamotas. "A colheita fica muito prejudicada em razão da dificuldade de muitos produtores em ingressar nos pomares", explicou.
São muitas variedades de laranja. Entre elas, as mais sensíveis aos impactos do mau tempo, são as laranjas "de umbigo". "Porém, os prejuízos são generalizados. Não lembro de ter visualizado nos últimos anos uma quantidade excessiva de chuva como esta que ocorre nos últimos dias", pondera.
Ainda conforme o engenheiro, a previsão de geada para os próximos dias, pode prejudicar ainda mais os pomares. No mercado os preços já sinalizam o efeito das dificuldades no campo. Em alguns estabelecimentos já ocorreu o aumento de R$ 2 a R$ 3 no valor da laranja.