Em um cenário político-econômico complicado, os diferentes setores sentem o impacto das dificuldades. Na agricultura a realidade não é diferente, porém, a reação é ainda expressiva. O coordenador do curso de Engenharia Agrícola da URI de Erechim, professor Sérgio Mosele, reitera que o agronegócio é o setor que vem segurando a economia e mantendo o superávit na balança.
Contudo, ele pondera que a agricultura e a pecuária, de modo geral, tem algumas características que a tornam uma atividade mais difícil, entre elas, a interferência do clima, o fator de ser uma atividade sazonal e atuar com produtos perecíveis. “Isso faz parte de uma atividade diferenciada a qual nem sempre é possível controlar os efeitos”, salienta.
Desse modo, as políticas macroeconômicas interferem diretamente na cadeia que abrange o setor. Nesse contexto, muitos são os desafios que enfrentam o cotidiano de trabalho nas áreas rurais. Entre os quais está a situação das estradas e da logística das atividades que influencia no agronegócio. “O agronegócio, além de não ser subsidiado, paga impostos e conquista muitos êxitos. São importantes algumas reflexões: para quem interessa separar a agricultura entre os pequenos e grandes produtores? Quando vamos nos alimentar, não pensamos de onde vem tal produto. O que importa é o alimento. Por isso, devemos incluir todos os agricultores, independente da atividade e do tamanho da propriedade”, ressalta.
Investimentos em profissionalização
Na opinião do professor, para os próximos 15 anos a mudança deverá ser muito significativa e a agricultura deverá ficar ainda mais profissionalizada nos diferentes setores. Tal situação se refere inclusive a busca constante dos jovens pelas oportunidades de qualificação. “Há esse interesse. Imagino que em pouco tempo muitos produtores terão no mínimo o terceiro grau de ensino. Porém, não podemos julgar os agricultores. Se mesmo diante de tantas dificuldades, conseguem manter as atividades, é porque possuem competência”, salienta.
Do mesmo modo, os avanços registrados no setor também possuem relação com pesquisas de entidades como Embrapa, universidades, empresas estaduais, iniciativa privada, além da parte de extensão com a Emater, e o trabalho das cooperativas, entre outras.
Sucessão rural
De acordo com Mosele, este é um assunto delicado, pois o proprietário rural é também o pai e muitas vezes é confundida a missão de gestor com a de familiar. “Acredito que é um assunto importante, é um problema sério mas deve ser tratado com muita delicadeza. Percebemos que as escolas não estão preparadas para essa problemática”, explica, comentando que há uma espécie de cobrança para que os filhos prossigam as atividades da família. “Eles não são obrigados a seguir nesse trabalho”, alerta.
Produtividade
Quando a questão é produtividade, chegamos a uma palavra-chave no meio rural: resultados. Para o professor, nos últimos anos houve avanços e retrocessos importantes. “A produção aumentou significativamente, houve investimentos em várias atividades, contudo, há aspectos que foram deixados um pouco de lado, como a conservação de solos. Hoje estamos piores do que há 30 anos”, criticou.
Por falar em evolução, as máquinas inovaram muito e hoje em dia, segundo o professor, há muita tecnologia e carência de pessoas preparadas para utilizar esse potencial tecnológico. “A biotecnologia é uma área fundamental e nem sempre é compreendida. Um exemplo são os transgênicos. Nem todos sabem, mas o primeiro produto biotecnológico no mercado foi a insulina e perceba as vantagens do produto. As tecnologias devem ser bem utilizadas”, enfatiza.
Para tanto, os produtos utilizados nas propriedades hoje produzem menos impacto ambiental, resíduos. “Considero que se o mesmo rigor que há na agricultura, fosse utilizado no consumo de medicamentos, as pessoas não se automedicariam”, afirma.
Conforme o pesquisador, a questão ambiental deveria receber o mesmo rigor que o meio rural recebe. “As discussões devem ser técnicas e não ideológicas. As pessoas nem sempre valorizam o trabalho dos agricultores, os quais não possuem um seguro agrícola”. Outra necessidade, cita, é o aumento na formação dos produtores na área comercial para compreender melhor o processo e garantir resultados mais efetivos.