Desvalorização profissional e ampliação de oportunidades de formação estão entre os motivos apontados pela escola
“Nos tempos em que vivemos, só escolhe ser professor quem realmente sonha muito com essa carreira”. A afirmação da diretora da Escola Estadual José Bonifácio (JB), Susiê Moreira, reflete um dos sintomas que permeiam números registrados pela instituição nos últimos anos: desde 2010 a escola – que é referência em Erechim e região por seu curso de magistério – vem assistindo ano a ano a queda no número de alunos interessados por ingressar na formação.
Há sete anos, segundo a diretora, a quantidade de ingressantes no magistério era de aproximadamente 90 alunos, divididos em três turmas as quais pelo menos duas concluíam o curso. No decorrer dos anos, porém, este número foi sendo reduzido. Em 2015, por exemplo, duas turmas ingressaram no magistério, sendo que metade dos estudantes desistiu no segundo ano e a previsão é de que apenas uma turma se forme. “Para o ano que vem acreditamos que vamos conseguir abrir somente duas turmas de magistério com aproximadamente 25 alunos cada. Quanto à continuidade, se seguir esta tendência, metade acaba desistindo e forma-se apenas uma turma”, projeta Susiê.
Para a educadora, o cenário atual da educação reforça a perda de interesse pela profissão. “No meu entendimento, isso acontece porque a valorização que se dá à educação é mínima. A valorização que se dá ao professor, então, nem se fala. Então acredito que seja natural que os adolescentes se questionem se vale a pena mesmo entrar em uma profissão que não é bem paga e que infelizmente deixou de ser bem vista pela sociedade”, pontua, ao citar ainda a falta de consciência por parte das famílias quanto à profissão, e as expectativas de futuro dos alunos. “Infelizmente a profissão perdeu o prestígio. Paralelo a isso, o constante movimento de luta da categoria por valorização acaba reforçando esse receio, já que os adolescentes planejam seu futuro almejando um bom retorno financeiro, o que não é condizente com a realidade do professor atualmente”, completa.
A coordenadora de práticas pedagógicas do curso de magistério da instituição, Mara Rodrigues Terra, reforça esse cenário e complementa com a ampliação do leque de possibilidades ofertado aos discentes. “Antigamente era bastante comum que principalmente as meninas buscassem o magistério por desejo, mas também porque era essa uma das poucas opções às quais elas visualizavam uma oportunidade de formação. Isso era reforçado também pelas famílias. Hoje aumentaram as opções e todos têm à disposição uma quantidade muito maior de cursos e oportunidades, o que permitiu que os alunos buscassem outros caminhos. Soma-se a isso a desvalorização do professor e temos, então, essa queda nítida na procura”, enfatiza a educadora.
Perfil dos estudantes
Atualmente, segundo a diretora do JB, cerca de 80% dos estudantes que cursam magistério são oriundos de outras escolas da cidade e, boa parte de cidades da região. Destes, a maioria é formada pelo público feminino. “É raro termos meninos no magistério, acredito que seja porque ainda se tenha muito preconceito quanto a isso, pois o curso prepara para lecionar de 1º a 4º ano e a sociedade ainda tem a ideia equivocada de que para cuidar de crianças precisa ser mulher”, afirma.
Outro aspecto apontado pela diretora e que reforça ainda mais a queda na procura pela profissão é o fato de que mesmo cursando magistério, muitos alunos não objetivam seguir carreira de professor. “É bem forte entre os estudantes a ideia de que o magistério vai somar no currículo em outras profissões que eles buscam seguir após concluir o ensino médio. Eles entendem que as práticas e vivências do curso serão importantes para outras áreas”, afirma.
Neste mesmo contexto, a diretora adianta que na contramão dos estudantes concluintes do ensino fundamental, há uma grande demanda pelo curso por parte de estudantes já formados no ensino médio e, até mesmo, em cursos superiores. “São profissionais que nos procuram por ter interesse nas práticas que são ofertadas no magistério e que não fazem parte da formação que eles têm. Por isso estamos nos organizando para que possivelmente no ano que vem possamos ofertar um curso voltado a esse público. O curioso é que embora os adolescentes não estejam procurando, as pessoas mais maduras têm buscado essa formação com o viés da complementação de suas formações”, completa.
Formação diferenciada
A diretora do JB explica que em relação ao ensino médio regular, a formação no magistério engloba uma série de práticas e vivências diferenciadas, focadas no trabalho com crianças. “O aluno do magistério é preparado para atuar com o ensino de primeiro a quinto ano. Essa preparação se dá por meio de práticas como recreio orientado, oficinas, pré-estágio e o estágio propriamente dito, enquanto o ensino médio regular é mais focado nos conteúdos”, salienta.
Foi justamente este diferencial que atraiu a estudante Vanessa Trentin, que optou pelo magistério por acreditar que a formação lhe traria uma visão diferente do ensino. “Tanto na escola pública quanto na particular, o ensino é mais focado no conteúdo básico, sem explorar a parte crítica. Isso é algo que o magistério faz, a partir do momento que a gente tem vivências com crianças em diferentes tipos de realidades e mentalidades. A grade curricular prepara para muitas coisas sobre a estrutura e funcionamento da escola, além de permitir fazer um paralelo com outros lugares para além da sala de aula. Não é à toa que se tem uma chance a mais no mercado quando se tem o magistério no currículo”, pontua.
Mesmo diante de todo o cenário apontado como motivador pela queda na procura pelo curso, Vanessa se encaixa no perfil apontado pela diretora no início desta reportagem. “Eu escolhi cursar magistério porque queria algo que me exigisse mais, que me envolvesse mais com a escola, porque quero muito ser professora. Pretendo atuar com os pequenos, mas também pretendo dar aulas futuramente no ensino superior. Isso porque acho fundamental estar bem preparada para atuar na base da educação brasileira, mas também auxiliando na preparação dos futuros profissionais que farão esse trabalho”, completa.
Procura por licenciaturas também caiu
Uma pesquisa do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp) mostra que o número de alunos que ingressaram em cursos de licenciatura presenciais caiu 10% entre 2010 e 2016. No mesmo período, o número de concluintes desses cursos caiu 7,6%. Os dados fazem parte do Panorama de Empregabilidade dos Concluintes no Ensino Superior. Segundo o estudo, 39,5% dos formandos em licenciatura estão trabalhando na sua área de atuação.
No âmbito geral, a pesquisa mostra que 47% dos alunos que concluíram a graduação estão trabalhando em sua área de formação. Outros 18,7% trabalham em uma área diferente da que se formaram e 34,3% não estão trabalhando. O estudo registrou um aumento no número de concluintes com renda inferior a três salários mínimos. No caso de estudantes na faixa de até 1,5 salário mínimo, o aumento foi 4,7 pontos percentuais e para alunos com renda entre 1,5 e 3 salários, houve crescimento de 3,4 pontos.