A crise leiteira continua afetando os produtores na região. O preço não reagiu como o esperado e, a expectativa é que isso venha a acontecer a partir dos próximos meses, com aumento do consumo e queda da produção que no momento está 30% acima do primeiro trimestre por causa da pastagem em abundância, mas espera-se diminuição, em virtude da entrada da soja nas áreas de pastagem. Os produtores vêm enfrentando uma crise, recebendo preços baixos desde o mês de junho.
Entretanto, o presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do RS (Sindilat), Alexandre Guerra, comenta que em novembro ocorreu aumento do preço do leite UHT e a indústria conseguiu minimizar um pouco dos impactos negativos, pois o produto representa 40% da produção, mas para que os reflexos cheguem até o produtor é preciso que haja uma recuperação de todos os outros produtos. “E para que isso ocorra implica em uma série de fatores, como o aumento do poder aquisitivo da população e, desta forma, provoque o crescimento do consumo. Além disso, o produtor precisa aumentar a produtividade por animal na propriedade. A indústria necessita ter escala em sua produção e prestar assistência técnica ao produtor. E ainda, o governo desonerar a carga tributária”, explica.
Diante de toda essa conjuntura Guerra diz que não há prazo para o setor leiteiro sair da crise, até porque no ano passado os preços recebidos pelo produtor estavam elevados e agora eles caíram significativamente. Um cenário totalmente distinto. Ele salienta ainda que em dezembro o consumidor está mais atento para os produtos das festas de fim de ano e não tanto para os derivados do leite. Assim, essa recuperação deve ocorrer somente em 2018.
O agrônomo da Emater, Vilmar Fruscalso comenta que a suspensão da importação de leite em pó da Argentina e Uruguai por parte do governo federal ocorreu por 20 dias e depois foi liberada. “Não aumentou a taxa de importação nem foram colocadas cotas, nenhum empecilho”, diz. Os produtores tinham esperança de que essa medida iria auxiliar na recuperação dos preços. Nos últimos três anos houve uma evolução na importação de leite em pó. Em 2015 a média foi de 4,22 toneladas/mês; em 2016 a média/mês foi de 6.750 toneladas; e até a metade de 2017 a média de importação de leite em pó/mês foi de 9.666 toneladas.
Além disso, Fruscalso diz que outro fator que contribuiu para o problema no setor leiteiro foi à crise econômica que influenciou na queda do consumo. “Não necessariamente ocorreu diminuição de compra do leite, mas de seus derivados, como queijo, nata, doce de leite, entre outros”, diz.
Com relação à situação atual, Fruscalso destaca que se os preços recebidos não reagirem em dezembro, a tendência é de que mais produtores venham desistir da atividade. Segundo ele, o preço justo para cobrir os custos de produção e ter uma margem de lucro teria média acima de R$ 1,30 o litro, enquanto que no momento a média está em R$ 0,90.
Em função do cenário crítico da atividade, especialmente por causa do preço baixo e desestímulo, ocorreu o abandono da atividade de produtores nos últimos dois anos na região em 16,5% e no Estado de 22,9%.
No Alto Uruguai são 5.647 produtores comerciais, com 83.266 vacas e uma produção de 282.555.491 litros ano. A média é de 10 litros/vaca/dia. De acordo com o agrônomo, a produtividade deveria ser o dobro disso e ele comenta que o problema maior se dá na nutrição. “Os animais ainda passam fome. É preciso uma dieta balanceada, com maior oferta de forragem e silagem de qualidade”, destaca.
A última crise do setor ocorreu há dois anos, quando o preço da saca de milho chegou a R$ 50.
Trabalhando no prejuízo
Há 12 anos trabalhando com produção de leite, o agricultor Edgar Vanderkerkoff (44) e a esposa Eliane, possuem a propriedade de 35 hectares no KM 14, Linha Dourado, interior de Erechim. No local cultivam grãos e possuem 33 animais com uma produção de 350 litros de leite/dia. No momento está recebendo R$ 0,92 pelo litro que é comercializado para uma cooperativa. “Estamos trabalhando no vermelho há vários meses. Temos dois filhos, um de nove anos e outro de quinze dias e tivemos que buscar auxílio em nossas economias, porque caso contrário, não teríamos condições de continuar”, conta.
Ele lamenta que está difícil de permanecer na atividade leiteira. “Ao longo da última década passamos por vários momentos difíceis e também por épocas boas. Mas essa crise está muito prolongada”, diz. No momento, Edgar diz que não está pensando em desistir da atividade. Ele enfatiza que seria preciso algum auxílio do governo federal, alguma espécie de subsídio, porque do contrário, muitos produtores vão encerrar os trabalhos. “A importação sem limites também não poderia estar ocorrendo”, acrescenta, destacando que, enquanto tiver suas economias vai permanecer na propriedade com a família e produzindo leite, mas não sabe até quando irá conseguir trabalhar no vermelho.