A margem de lucro unitária vem diminuindo e os investimentos são maiores em função do uso da tecnologia, por isso é necessário o planejamento e a gestão. A prática não é comum entre os agricultores da região do Alto Uruguai, mas o mundo está impondo essa necessidade e quem o faz está percebendo a mudança na propriedade. Diante dessa inevitabilidade, a Emater está executando o programa Gestão Sustentável da Agricultura Familiar, promovido pelo governo do Estado.
A meta é acompanhar 40 mil famílias em quatro anos. No Alto Uruguai são 324 famílias, sendo 10 por cada escritório municipal. Os trabalhos estão no fim do segundo ano. O agrônomo da Emater Regional de Erechim, Vilmar Fruscalso, explica que ele é realizado em duas partes distintas: gestão econômica e gestão ambiental. Na primeira é feito um levantamento patrimonial, das atividades desenvolvidas e o planejamento delas. Levantamento das áreas, da renda, do custo de produção. E em seguida é discutido junto com o agricultor, os seus planos para o próximo ano, os cinco anos seguintes e as metas para a próxima década. “Diante das respostas do produtor é realizado um planejamento e o acompanhamento da propriedade acontece a cada 60 dias. Na ocasião o técnico percorre a propriedade, discute os gargalos, aponta possíveis soluções. Também conversa sobre custos, rentabilidade, mercado, viabilidade da atividade econômica, sugestão de mudanças”, explica Fruscalso.
Já na segunda parte do programa, a socioambiental, é realizado um levantamento do cadastro da propriedade para diagnosticar as questões ambientais e os problemas; tipos de defensivos agrícolas utilizados, poluição ambiental, erosão do solo, desmatamentos. É observada a adequação à lei ambiental, código florestal, o Cadastro Ambiental Rural (CAR), saneamento básico, destino correto de embalagens de agrotóxicos.
Ainda são analisadas as questões sociais, como se o agricultor possui documentos, a saúde da mulher, se são cooperativados, a sucessão rural, entre outros aspectos.
Na tarde desta quarta-feira (29), acontece em Três Arroios, a primeira reflexão do trabalho realizado durante dois anos, com o Seminário Regional do Programa Gestão Sustentável da Agricultura Familiar. Será no salão paroquial, com palestras para debater o tema com representantes da Emater e Embrapa. Também haverá representação dos 32 municípios da Amau e agricultores assistidos. Ainda haverá depoimento de alguns agricultores que participam do programa e que apresentam resultados positivos na propriedade.
Conforme Fruscalso, as pessoas que se dedicam ao programa Gestão Sustentável, aceitam as sugestões, percebem uma oportunidade de mudança e crescimento e passam a entender a realidade em que estão inseridas estão obtendo retorno, especialmente, quando passam a identificar seus gargalos. “É necessário planejar. Essa questão dos números não é comum, não é um hábito, mas está se tornando mais que uma necessidade, uma obrigatoriedade para prosperar”, diz.
“Antes trabalhávamos pensando no hoje e agora trabalhamos pensando no amanhã”
O técnico em agropecuária e extensionista rural da Emater de Três Arroios, Jair Griebler diz que o programa propiciou a organização e o planejamento das atividades na propriedade de Valmir Ritter, que reside na Linha Assis Brasil, interior do município. Ele cultiva frutas e, já é possível visualizar um retorno da implantação da gestão, com melhores condições de trabalho e renda na propriedade.
Valmir reside com a esposa e os pais na propriedade de 29 hectares. No local ele cultiva oito hectares com frutas, principalmente laranja e bergamota, mas já está planejando a ampliação de mais três hectares. “Estamos participando do programa de gestão sustentável há dois anos e é possível notarmos diferença, porque hoje estamos planejando nossa atividade para mais adiante. Antes trabalhávamos pensando no hoje e agora trabalhamos pensando no amanhã”.
Entre as mudanças já realizadas está a mecanização para driblar a ausência da mão de obra e obter uma produção com mais qualidade. O produtor também busca aumentar a produtividade e ter produtos por um maior período durante o ano, por isso o aumento de área cultivada. Nesta safra obteve cerca de 40 toneladas por hectare, um pouco baixa devido ao clima. A comercialização é realizada para uma associação e em supermercado e restaurantes de Erechim.
Griebler explica que inicialmente foi realizado um diagnóstico na propriedade e questionado o produtor sobre o que ele desejava para os próximos anos. “Ele nos disse sobre a intenção do aumento da produtividade, qualidade, aumentar a oferta da fruta ao longo do ano e redução da penosidade de trabalho. Diante de suas considerações e com raio X do local, vimos suas limitações e apontamos soluções”.
Entre as limitações estava a mão de obra e, obrigatoriamente, foi sugerida a colocação da mecanização. Outro entrave era o controle de pragas e doenças que estava sendo realizado manualmente, o que acabou sendo sugerido também, ser realizado mecanicamente. Sobre a necessidade de melhorar a qualidade visual da fruta, está relacionado com adubação, nutrição e controle de pragas e doenças. Para isso, é preciso um equipamento de pulverização, com tratamento uniforme. “Então também propusemos a mecanização. A área onde está plantado o pomar é acidentada, como é a topografia da região e não houve um preparo do solo. Assim, o produtor adquiriu um trator cabinado para fazer as pulverizações e um pulverizador. E fomos resolvendo outro problema, que é o aumento da oferta de frutas. Neste caso, estamos planejando o aumento da área plantada e diversificação de variedades. Assim, em cinco anos, quando estas novas áreas entrarem em produção ele terá 10 meses de oferta, podendo obter uma renda superior produzindo fora de época”, acrescenta.