As cidades do Alto Uruguai, a exemplo de outros municípios do país, enfrentam dificuldades de orçamento, infraestrutura, comunicação, energia, entre outros. Como se desenvolver social, cultural e economicamente nessas condições? Faltam recursos e sobram responsabilidades. Dentro disso, o Jornal Bom Dia abre esse espaço para olhar mais a fundo a realidade da região e o que pensam os gestores públicos neste ano de eleições. Nesta entrevista, conversamos com o prefeito de Três Arroios, Lírio Zarichta, que está no seu segundo mandato.
Bom Dia: Faça um breve cenário da sua administração?
Lirio: Em relação ao nosso governo a gente vive um bom momento. O município vem num crescente em termos de índices de desenvolvimento e melhoria da arrecadação.
Cite uma das principais dificuldades do gestor público?
A burocracia é hoje o maior problema da administração pública. A legislação tem sido exigente com os municípios, prefeitos e vereadores.
O município é onde mais se faz e onde tem menos recursos?
Tem que ter uma reforma tributária e uma melhor distribuição dos recursos. As coisas acontecem no município, que fica com a menor fatia, e é onde tem a maior dificuldade para aplicação desses recursos.
Cite um exemplo?
Dia 19 saiu o decreto alterando o valor das licitações, que era uma das reivindicações dos municípios. Uma conquista muito grande. Acima de R$ 8 mil tinha que licitar, agora passou para R$ 17mil, mas ainda é baixo o valor. Há ainda a judicialização do serviço público, o Judiciário determina fazer alguma coisa e não quer saber se tem orçamento.
Como mudar isso?
Uma das coisas que tem que mudar é o repasse dos recursos via Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Somos muito dependentes. Essa questão das emendas parlamentares engessa o gestor. Temos que ir lá de pires na mão buscar os recursos. Se o recurso viesse pelo FPM o prefeito aplicaria onde realmente precisa.
O que o Alto Uruguai tem que fazer para combater a crise e se desenvolver?
É necessário usar melhor nossa força política. A região não tem um cargo relevante no governo do estado e nem no governo federal. Essa falta de representatividade faz com que nosso desenvolvimento não aconteça de forma semelhante a outras regiões do estado.
O Alto Uruguai não poderia se unir mais e resolver os problemas em conjunto?
Se a região está se desenvolvendo, Erechim se desenvolve. No entanto, o estado não tem capacidade de investimento. Por exemplo, o Rio Grande do Sul não tem como competir com Santa Catarina porque em 60 dias sai uma licença ambiental. No Paraná são 90 dias e no Rio Grande do Sul são 900 dias em média.
Por que outras regiões conseguem ter agilidade nessas questões?
No Rio Grande do Sul a situação é a mesma. Santa Catarina o ICMS é diferenciado, nossa carga tributária é alta, os empresários que investem aqui são corajosos, porque temos um custo mais alto que reduz a competitividade e ainda com problemas de logística.
Amau deveria ser mais atuante na questão da política regional?
O que dificulta isso é a pluralidade partidária que tem na região, cada município tem dois partidos ou mais. O que engessa de fato essa questão política são as tais das emendas parlamentares. Tem que mudar a forma de distribuição de recursos.
Vamos ficar mais quatro anos sem representante em Brasília?
Provavelmente sim.
Não estaria na hora de deixar a questão ideológica de lado e trabalhar pela região?
Talvez sim. Acho que a região teria número de eleitores para eleger um deputado federal. Mas isso não vai acontecer. Hoje, um prefeito sem deputado certo não é nada, administra o custeio. Isso faz diferença. Se não mudar a conjuntura a região não vai ter representante na Câmara nem no Senado.
Agência de Desenvolvimento não poderia fazer projetos para buscar recursos no estado e em Brasília?
Com certeza. A agência poderia e deveria ser mais atuante. Falta alguma coisa em termos de articulação dentro da região, porque não é de forma isolada que as coisas vão acontecer. A agência tem esse papel de congregar. Hoje, a Amau é uma das grandes colaboradoras da agência.
Tem que ampliar o orçamento da agência?
Será que é só responsabilidade do poder público? O desenvolvimento interessa a quem? Quem é que ganha com o desenvolvimento regional? Ele não passa simplesmente pela Amau, tem que envolver o poder público, mas também a iniciativa privada, escolas, universidades, cooperativas, sindicatos.
Ano de eleição, o que dizer para o eleitor em relação a isso? E o que o representante público não pode deixar de ter?
O eleitor tem que votar nas pessoas sérias, comprometidas, porque senão vai se eleger de fato quem não está comprometido com as reformas.
Como distinguir isso, olhar para o cenário de Brasília e ver quem é bom?
Pelo caminho da renovação, que é difícil acontecer. O eleitor tem que votar e escolher os melhores. Porque se não votar será pior, vai continuar ou agravar a situação.
O que vislumbra para as eleições desse ano e o que o eleitor pode esperar?
Ano complicado. Nosso país tem solução, mas tem que acabar com a corrupção. Resgatar a questão da honestidade, comprometimento, valores. O processo todo tem que mudar na sociedade. Isso começa na base com educação.
Qual é a vocação e o futuro do Alto Uruguai?
O Alto Uruguai tem um potencial muito grande no setor agropecuário, nas atividades de criação e de grãos. Precisamos transformar a matéria-prima aqui, não exportar. Tem potencial no setor de indústria, comércio e serviços e ainda tem espaço para crescer. Outro potencial é na questão do turismo de termas, gastronomia e religiosidade. O Alto Uruguai precisa organizar e integrar esses setores desde o turismo até o agronegócio. Temos que concentrar as energias, focar numa integração das ações dos municípios. O cenário é positivo porque tem gente trabalhadora aqui. O futuro do Alto Uruguai é bom.