"A educação deve ser observada pela perspectiva de qualidade e não de quantidade". Esse é o posicionamento da coordenadora pedagógica do Colégio Estadual Mário Quintana de Barão de Cotegipe, Aline Bedin, ao relatar os problemas do cotidiano escolar à reportagem do Jornal Bom Dia.
O ano letivo na rede de ensino estadual iniciou enfrentando dificuldades para preencher o quadro de professores. Na região de abrangência da 15ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), a situação foi resolvida completamente apenas em maio. No entanto, a alternativa de remanejamento de educadores adotada pela Secretaria Estadual de Educação, já está apresentando problemas à aprendizagem dos estudantes, com fechamento de alguns setores, enturmações e falta de funcionários.
De acordo com Aline, o Colégio Mário Quintana não tem nenhum setor com as atividades suspensas, mas os professores e funcionários estão intercalando seus horários para conseguir cobrir os três turnos diários que a instituição possui aulas. "Nossa secretaria, por exemplo, está há dois anos apenas com uma secretária que tem 40 horas semanais de trabalho, só que a escola funciona em 60 horas. Outro problema está na contratação de funcionários. Estamos com defasagens na limpeza e o governo até já liberou a contratação, mas o contrato é vigente apenas até o fim do ano letivo, depois essa pessoa será exonerada", pontuou.
Para a coordenadora, o principal erro é o olhar que está se desenvolvendo à Educação. "Não é só quantidade, é qualidade. Agora não estamos com falta de professores, mas eles podem entrar em laudo médico, se aposentar e, novamente, nós teremos que lidar com esse problema. Por exemplo, uma professora nossa será transferida após o recesso e isso implica toda a organização escolar, porque cada educador possui um planejamento, então imagine: o estudante inicia as aulas sem professor, depois o Estado contrata, aí um profissional é transferido e entra outro, com isso, o aluno precisa se reorganizar. Isso dificulta os processos de ensino e aprendizagem. E esse é o problema do Estado que só enxerga números e não as pessoas", concluiu.
Descaso
Para o diretor do Colégio Estadual Haidéee Tedesco Reali, Darlan da Rocha, esse cenário é resultado da ausência de prioridade nos governos estadual e federal. "Eles levantam bandeiras a favor de reformar e qualificar o ensino, mas isso não dará certo enquanto for feito por pessoas que não conhecem o cotidiano escolar. Essas iniciativas que são apresentadas, como a inovação na educação, quando é colocada em prática só faz piorar, porque não tem a escola como prioridade, muito pelo contrário, atuam para sucatear ela", desabafou à reportagem.
No Colégio, a falta de professor ainda é recorrente. "Seguidamente algum educador entra em laudo ou são remanejados. Mas as cobranças por um bom ensino continuam e como as pessoas querem que eu apresente um trabalho bacana sem número suficiente de funcionários?", questiona. E, acrescenta, "alguns setores foram fechados, a biblioteca, por exemplo, está funcionando parcialmente, outras atividades estão sendo realizadas com a gente se intercalando para suprir as demandas. Contudo, têm setores com mais dificuldades, como a coordenação pedagógica, que agora é preciso ter o curso de Pedagogia para exercer, só que ninguém quer assumir essas responsabilidades pela situação que está a rede".
Darlan acredita que esse comportamento revela a intenção de privatizar os setores da educação. "Imagino que eles pensam da seguinte maneira: vamos elaborar algo para resolver temporariamente esse problema e, se não der certo, encaminhamos para a iniciativa privada. E eu só fico pensando nos filhos dos trabalhadores, que moram em bairros distantes do centro e que vivem de um salário mínimo. Como eles irão pagar seu ensino, quando não se tem dinheiro suficiente nem para as refeições?", questionou.
A questão dos salários também causa preocupação. "Nós estamos sem dignidade com os salários parcelados. Já são mais de 4 anos sem aumento, só que os preços do mercado alteram semanalmente, ou seja, o custo de vida aumentou e nossa remuneração não acompanha", concluiu.
Os impactos da medida de remanejamento já estão sendo refletidos na Escola Estadual Normal José Bonifácio. Conforme a vice-diretora da instituição, Lisiane Cezne, a biblioteca está fechada e o ensino fundamental II (séries finais) está sem coordenação pedagógica. "Nós estamos com professores em todas as salas de aula, mas outros setores estão sendo penalizados e a aprendizagem transcende as aulas regulares. Então é uma lástima que a educação esteja sendo administrada dessa maneira. A qualidade deveria ser prioridade e não adianta se preocupar apenas com a quantidade de professores em sala, pois uma escola não tem atividades apenas entre as quatro paredes da sala de aula", afirmou ao Bom Dia.
Além da biblioteca, há dois anos a escola está com os laboratórios de Matemática e Biologia fechados. A secretaria só conta com dois funcionários, que precisam se dividir nos três turnos de funcionamento da instituição. Já o setor de limpeza e cozinha também está sofrendo com ausências. "No período noturno só temos uma funcionária na cozinha, que precisa se responsabilizar pela merenda de mais de 300 estudantes e com a limpeza do local", complementou. A alternativa para os empréstimos de livros e materiais está sendo intermediada com a equipe diretiva e com professores que organizam sua carga horária para ficar cerca de duas horas semanais no espaço.
Cpers organiza abaixo-assinado
O Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers), está organizando um abaixo-assinado que será entregue ao Ministério Público, reivindicando melhorias nas estruturas e condições de trabalho nas escolas. De acordo com a diretora, Marisa Betiatto, o sindicato está aguardando o agendamento de uma audiência pública para entregar o material.