"Não adianta a criança estar apenas em sala de aula ou ter apoio do Atendimento Educacional Especializado (AEE), é preciso que todo o ambiente escolar seja inclusivo". Esse é o posicionamento da responsável pela educação inclusiva da rede municipal de Erechim, Marilene Pizarro, sobre proporcionar uma educação de qualidade para pessoas com deficiência, a qual, segundo ela, deve transcender o exercício pedagógico.
Os últimos dias foram marcados por ações da Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, que acontece anualmente entre os dias 21 e 28 de agosto. Na região Alto Uruguai foi realizado um seminário na semana passada e nesta edição a reportagem do Jornal Bom Dia apresenta um panorama de como ocorrem os processos de ensino e aprendizagem das crianças com deficiência, da rede estadual e municipal.
Escolas municipais de Erechim
O município de Erechim atua junto à Política Nacional de Educação Inclusiva e atende 213 estudantes com algum tipo de deficiência. A rede oferece matrículas no ensino regular e apoio com a equipe de Atendimento Educacional Especializado (AEE). "Todas as crianças para que tenham um amparo legal, precisam apresentar seu diagnóstico encaminhado por um médico ou psicólogo. A partir disso, ele terá acesso as aulas regulares, que é um direito, bem como, todo o apoio que a escola pode oferecer", contou Marilene, citando, ainda, que "no contraturno ele participará de atividades promovidas pelo AEE, que ajuda na aprendizagem, buscando melhorar suas dificuldades nos conteúdos. Ainda, tem casos em que o estudante precisa de um professor bidocente em sala de aula", complementou a responsável pela educação inclusiva municipal. O cenário das escolas municipais erechinenses demanda professores bidocentes para 84 estudantes. "São crianças que apresentam mais dificuldades e, por isso, contam com apoio de um monitor ou estagiária".
Para ela, no ensino regular busca-se priorizar as peculiaridades de cada aluno. "Todas as crianças têm potencial para aprender, mas para isso é preciso respeitar as especificidades e o tempo de cada um. Sobretudo, nosso trabalho estimula a autonomia deles, afinal, isso irá melhorar seu desenvolvimento tanto na escola, como fora dela, em sua vida social".
A presença da família na escolarização também é essencial para o sucesso escolar. "Em meio as possibilidades da família, é necessário acompanhar o processo escolar, mas também as questões de saúde, tais como, levar ao fonoaudiólogo ou a psicólogos. Assim, o papel da família é fundamental, até mesmo nas atividades da escola, levando e incentivando eles no AEE, que ocorre no contraturno. Porque é preciso entender que a escola se limita às questões educacionais e a família é responsável por todas as outras esferas que envolvem a vida da criança", argumentou Marilene.
Além das atividades na escola, a rede disponibiliza transporte e formações para a comunidade escolar. "As vezes a mobilidade é um problema para a família, então disponibilizamos o transporte para que o aluno permaneça na escola. E nós entendemos que oferecer uma educação inclusiva vai além do professor, passa por todos os membros da comunidade, assim, considerando também o porteiro, a cozinheira, todos. Por isso, temos um projeto na Escola Municipal Othelo Rosa, que oferece capacitação em Língua Brasileira de Sinais (Libras), para que todos possam se comunicar com as crianças, a professora e a estagiária que são surdas. A comunicação é uma peça chave para proporcionar uma educação inclusiva de verdade", concluiu.
Cenário nas escolas estaduais
Com aproximadamente 23 mil estudantes, a 15ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) abrange 41 municípios e conta com 744 alunos com deficiência. De acordo com a assessora da Educação Especial/AEE da 15ª CRE, Rosane Cardoso Garcial, a matrícula em qualquer instituição, desde que se tenha vaga, é um direito da família. "Assim, o estudante irá participar do ensino regular e, se a escola possui o AEE, também contará com esse atendimento no turno inverso das aulas. Então, o processo de ensino e aprendizagem ocorre em sala de aula de maneira coletiva com os outros alunos".
A presença de monitores também é comum na rede estadual. "Algumas crianças cuja a deficiência traz pra ela algum tipo de dependência, nós oferecemos os monitores e quem determina a necessidade desse apoio são os professores especialista do AEE", acrescentou.
A maioria das escolas possui salas de recursos multifuncional (local que ocorre as atividades junto à equipe do AEE). "Não são todas, infelizmente, mas na ausência desse espaço, o atendimento ocorre com a instituição mais próxima. Essa ação é itinerante com os profissionais do AEE visitando as instituições que não possuem a sala de recursos", relatou. Existe, ainda, a sala de recursos multifuncional tipo 2, "nós temos em Sananduva e Erechim, que é focado em deficiência visual e cegueira, e a equipe se mobiliza para dar suporte em caso de ocorrência dessas deficiências em outros municípios".
Alguns desafios ainda são frequentes para melhorar a aprendizagem das crianças com deficiência, contudo, a 15ª CRE tem fortalecido as capacitações, "no sentido de que as pessoas estejam cada vez mais informadas de que é possível fazer aprendizagem com todo e qualquer sujeito".
Para Rosane, a experiência que a educação inclusiva traz ao ambiente escolar é transformadora. "A inclusão muda os professores, funcionários, a equipe gestora, além de enriquecer a vida social dos colegas, assim como, a sociedade fica mais plural", concluiu.