Produto clássico na mesa dos brasileiros, o arroz com feijão passou a sair mais caro para o consumidor. Após a alta no preço do feijão, impulsionada pela acentuada elevação de todas as commodities – decorrente da redução de área e menor produção –, o arroz deve ser o vilão na próxima inflação.
No Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o feijão carioca teve uma alta de 16,38%. Juntos na mesa, a perspectiva é de que o arroz também inflacione, ainda nas próximas semanas.
O cenário que constata a projeção vem da situação na produção do grão. A baixa disponibilidade e a demanda firme continuam impulsionando o preço da saca de arroz em casca no Rio Grande do Sul. A alta nos últimos sete dias foi de 4,3%, com o Indicador ESALQ-SENAR/RS, fechando a R$ 49,08/a saca de 50 kg, na terça-feira (28).
A redução da produção da safra 2015/16, a possibilidade de “fazer caixa” com outras commodities (como a soja) e a recente prorrogação das parcelas de custeio da safra 2014/15 para parte dos orizicultores têm dado suporte à posição retraída dos vendedores.
Do lado da demanda, indústrias locais e de outras regiões consultadas pelo Cepea demonstram forte interesse por novas compras de casca – devido à necessidade de atender grandes centros consumidores e também de repor estoques –, elevando suas ofertas de preço tanto para o arroz depositado como para o arroz “livre” (depositado nas propriedades rurais).
Desentendimento entre entidades
A Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) divulgou nos últimos dias uma notícia que falava em elevação de 67% no preço do arroz. “Um movimento especulativo do setor de produção de arroz tem reduzido a oferta e elevado preços do cereal para a indústria brasileira. Nos últimos 12 meses, houve elevação de 67% nos valores praticados entre o produtor e o setor industrial, com dificuldades de aquisição de matéria-prima por parte das indústrias e reflexos negativos para o abastecimento interno do produto, preços ao consumidor e exportações. Esta situação se torna evidente com a análise de preços não somente do último ano, como também dos últimos dias: o indicador de preços Cepea/Esalq aponta que em 30 de junho os preços do arroz apresentaram um incremento de 0,95% em relação à data anterior. Somente no mês de junho, o aumento já atinge níveis de 14,62%”, informava.
Em seguida, a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) rebateu os números e afirmou que a elevação do preço foi de 16,99%. Segundo a nota, “a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) garante o abastecimento alimentar do país e lamenta as posições apresentadas pela Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), em notícia veiculada na última sexta-feira, dia 1º de julho, a respeito do comportamento dos preços do arroz, ligado ao suposto movimento especulativo do setor primário. Além de considerar as afirmações uma verdadeira afronta aos bons costumes e ao trabalho harmonioso da cadeia produtiva, a Federarroz entende que elas, claramente, faltam com a veracidade e contextualização dos fatos.
Ao contrário do afirmado pelo presidente da entidade, Mário Pegorer, os preços pagos ao produtor de arroz subiram meramente 16,99%, na comparação da média de preços do primeiro semestre de 2015 para o mesmo período de 2016 (Cepea/Esalq), muito aquém dos injustificáveis 67% afirmados pelo Presidente da Abiarroz”.
Preço deve chegar ao consumidor final
Se nas gôndolas dos mercados, o arroz ainda tenta equilibrar o preço do prato mais tradicional do brasileiro, logo esse cenário vai mudar. O integrante da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), proprietário de um supermercado de Erechim, Ademir Fávero, explana que a elevação é gradual.
“Para o consumidor, o valor pode não ter aumentado ainda, já que ele vai sendo repassado aos poucos e enquanto há produto em estoque, nós conseguimos segurar os preços. Mas já notamos a escassez do produto no mercado, e o aumento, segundo os fornecedores, será de 13% a 15%”, conclui Favero.
Sem reajuste, o preço médio do arroz ainda é encontrado por aproximadamente R$10, de acordo com o gerente de uma rede de supermercados, Osvaldo Rossi. “O preço vai aumentar nas próximas semanas, mas não acredito que o consumidor vá substituir o arroz com feijão. Pode, talvez, buscar alternativas mais em conta, mas deixar de comprar, dificilmente”, explica Rossi.
Preço alto virou piada na internet
Restou ao consumidor optar por alternativas criativas para driblar os altos preços com bom humor. É o caso do observador meteorológico, Ivegdonei Sampaio, que agora aprecia o prato com o gosto da tecnologia, como mostra a foto ao lado. “A gente fez a montagem para brincar com o preço, mas esperamos que os preços abaixem logo. Quando vou ao mercado, sempre encontro donas de casa reclamando dos valores e buscando alternativas. Apesar da perspectiva de subir o preço do arroz, não sei se vou deixar de comprar o essencial da minha alimentação”, explana.
Feijão uma vez por semana
Brincadeiras a parte, o preço deixou consumidores, como a aposentada Olga Maria Schenkes, descontentes. “Eu gosto muito de feijão e arroz, mas com o aumento no preço, não dá para comer feijão. Se aumentar o preço do arroz, vai ser difícil achar outro produto para substituir. Vamos ter que comer esse prato uma vez por semana agora”, conclui.