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Obituário

Último voo

Morre, aos 74 anos, o piloto erechinense, Paulo Renato Berto, o Fumaça, um amante da aviação

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“Não tenho do que reclamar”, disse Fumaça ao fim da entrevista
Por Da Redação regiao@jornalbomdia.com.br
Foto Divulgação

Faleceu em casa, na tarde de sábado (22), por volta das 13h30, aos 74 anos, o piloto erechinense, Paulo Renato Berto, o Fumaça, de infarto fulminante. O aviador foi velado na capela A do Hospital de Caridade e enterrado no domingo, às 16h, no Cemitério Pio XII. Fumaça nasceu em 16 de dezembro de 1947, em Erechim, e deixa esposa, Stela Mariz Berto, e os filhos Rodrigo, Maurício, Leandro e Paula Renata, e as netas, Marina, Luiza, Julia, Martina, Rafaela (in memoriam).

E para lembrar um pouco da sua história de vida, à guisa de um obituário, desse acrobata fascinado pela aviação desde criança e reconhecido nacional e internacionalmente, reproduzimos a entrevista do jornalista, Salus Loch, com ele no dia 29/07/2021, que mais foi uma conversa prazerosa, como disse no início da matéria.   

Luta contra o câncer

O tempo voa, literalmente. O crepitar da lareira, que aquece o ambiente ao lado de seu sofá preferido na casa de dois pisos que divide com a esposa Stela, parece estimular as memórias do aviador e acrobata nacional e internacionalmente reconhecido.

A serenidade, no entanto, contrasta com a apreensão que recai sobre o impagável contador de histórias. Naquele dia, 29 de julho, Fumaça estava se preparando para amputar o braço direito, pouco acima do cotovelo, a fim de derrotar um tumor maligno agressivo que o acompanha há cinco anos.

Braço e a vida

‘Tive de optar entre o braço e a vida. Não foi uma escolha tão difícil’, resume o canhoto – que já recebeu a garantia dos amigos de tênis de que seu lugar nas duplas, nas quadras do Piscina Clube, está garantindo e, se preciso for, sem a necessidade de ‘sacar’ (movimento que dá início ao ponto no tênis).

Na entrevista, Fumaça resgata passagens da aviação em Erechim, relembra quedas e o ‘momento ator’ na novela Ana Raio e Zé Trovão. Também dá uma aula de resiliência ao falar da doença que levará parte do braço, sem, contudo, abalar a fé e o humor do ‘boa praça’, Fumaça.

Início na aviação

‘Desde pequeno lembro que era fascinado por aeronaves. É difícil explicar como essas coisas acontecem. Apesar dos alertas e preocupações de minha mãe, dona Lucinda, aos 19 anos já era piloto privado e de acrobacias formado pelo Aeroclube de Erechim. Em Palmeira das Missões, me formei piloto e instrutor de planador, depois de ter tido aulas com o Sr Eberard Gabler, que lutou pelo exército alemão na invasão da Normandia, durante a Segunda Guerra Mundial’.

Ruben Berta

‘Pouco se fala a respeito, mas devemos ao ex-presidente da Varig, Ruben Berta, a primeira iluminação da pista de nosso aeroporto, nos anos 1960, bem como o farol, o abastecimento e a estação meteorológica – que compartilhava com as outras quatro companhias aéreas que aqui operavam (Sadia, Savag, Cruzeiro do Sul e Real). Não à toa, ele recebeu em homenagem o seu nome no viaduto, que leva ao Morro da TV. A mesma Varig, aliás, servia nossa linguiça Campeira, do frigorífico Boavistense, na 1ª classe de seus voos internacionais’.

Aeroporto, altos e baixos

‘Há cerca de 55/60 anos, nosso aeroporto era um dos mais movimentados do RS. Eu ia até lá só pra ver os aviões subindo e descendo. Infelizmente, em nosso entorno, as economias de Chapecó, que em meados da década de 60 se tornou a capital do Oeste de SC, por decisão do governo estadual, e Passo Fundo, com a instalação da Universidade, passaram a crescer mais rápido do que Erechim – e, com isso, os voos daqui começaram a minguar. Além disso, a crise do petróleo dos Emirados Árabes tornou muito caro o preço do combustível, mudando a realidade do setor’.

Momento marcante

‘Acredito que tenha sido quando vi, em Erechim, a apresentação da Esquadria da Fumaça. O apelido Fumaça, aliás, veio dali – e foi dado pelo comandante Braga, que me chamou de ‘Fumaça dos Pampas’ como forma de reconhecer minhas manobras e loucuras. Me senti honrado’.

Dragões Voadores e Paralto

‘No ano passado recebi uma homenagem pelos 50 anos dos Dragões Voadores, grupo que fundamos para realizar acrobacias. Lembro que nos apresentávamos em troca de pouso e alimentação por diversos municípios do Sul do país. Era divertido. Assim como também foi o Clube Alto Uruguai de Paraquedismo Civil, que também ajudei a fundar, embora, este não tenha tido longevidade’.

Quedas

‘Além de diversos sustos, tive duas quedas. A primeira – que rendeu uma clavícula quebrada, algumas escoriações e uma hélice que guardo até hoje em minha sala – foi em 1968, no trecho entre Erechim e Getúlio Vargas. A segunda, devido a uma pane seca, me ‘derrubou’, ao lado do meu aluno na época, Hugo Boff, nas alturas do bairro Progresso. Felizmente, saímos ilesos’.

Ana Raio e Zé Trovão

‘Essa passagem foi interessante. Nosso grupo foi chamado para gravar em Joaçaba/SC algumas cenas da novela da TV Manchete ‘Ana Raio e Zé Trovão’. Ficamos famosos por um dia’.

Perdas

‘Ao longo do caminho, perdi mais de uma dezena de amigos espalhados pelo Brasil durante voos. Estamos sujeitos a isso, mas, é preciso continuar. É assim que devemos encarar a vida’.

Amputação

‘Nos últimos cinco anos, passei por quatro cirurgias para tentar extirpar o tumor que ameaçava meu braço direito. Agora, não há mais como protelar: ou era o braço, ou a vida. Não foi difícil escolher. Penso, porém, que a existência nos prepara para enfrentarmos as dificuldades. Tenho muita sorte em ter uma família que amo e que me dá forças e um bom médico, o oncologista Miguel Roismann.  Sigo confiante. Até porque, hoje, a ciência permite que, ali na frente, eu possa utilizar uma prótese. Como você pode ver, poderia ser pior. Não tenho do que reclamar’.

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