Seus resultados não excederão sua motivação, por isso, sua motivação deve ser vasta.
Esse foi um dos ensinamentos que recebi neste fim-de-semana durante visita ao Centro Budista ‘Chagdud Gonpa Khadro Ling’, localizado no município de Três Coroas, a cerca de 415 km de Erechim. Foram dois dias intercalados com incursões naquele ambiente especial – que reabria suas portas depois de 26 meses fechado em razão da pandemia.
Na coluna de hoje, compartilho um pouco da experiência, contando a história do complexo, inaugurado em 1995; além de trazer trechos de entrevista com a diretora espiritual do Khadro Ling, Chagdud Khadro, viúva do fundador do espaço, Chagdud Tulku Rinpoche; esclarecendo, ainda, algumas dúvidas e princípios/fundamentos básicos do Budismo Tibetano praticado por lá.
O Centro
O Chagdud Gonpa Khadro Ling é a sede sul-americana de uma rede de Centros de Budismo Tibetano Vajraiana fundado por Chagdud Tulku Rinpoche. Em 2002, com o falecimento de Rinpoche (que significa ‘precioso’), os centros passaram à direção espiritual da norte-americana Chagdud Khadro, sua esposa.
Em tibetano, Kha significa “céu”; Dro significa “mover-se”, “ir”, “dançar”; Khadro é a tradução de Dakini, palavra associada a um aspecto da energia iluminada na forma feminina. Já Ling significa “local”. Uma tradução possível para o Centro Budista Khadro Ling, então, é “Morada das andarilhas do céu”.
Cerca de 50 praticantes do Budismo Tibetano Vajraiana moram no colorido Khadro Ling. São pessoas de vários locais do Brasil e do mundo, que buscam priorizar a prática espiritual e auxiliar nas atividades diárias necessárias à manutenção da estrutura, que é mantida por doações.
Nas terras do Khadro Ling há um La Kang, um templo construído e ornado dentro das tradições artísticas tibetanas. Além de abrigar retiros e cerimônias budistas, o templo principal e outros monumentos do lugar – como estátuas, estupas, rodas de oração e uma réplica de uma Terra Pura – estão abertos à visitação, que é gratuita e pode ser realizada sem agendamento de quinta a domingo (segunda, terça e quarta-feira o espaço não está aberto ao público).
A Fundação
O Chagdud Gonpa Brasil faz parte de uma rede internacional de centros cuja origem é o Chagdud Gonpa no Tibete, um monastério fundado no século XV. Estabelecidos por Chagdud Tulku Rinpoche, os centros brasileiros oferecem ensinamentos e práticas de meditação da tradição Nyingma do Budismo Tibetano Vajraiana. Além do monastério do Tibete e da rede brasileira, a Fundação Chagdud Gonpa também possui centros nos Estados Unidos, Uruguai, Chile e Itália.
Vida e ensinamentos de Rinpoche
Fundador do Khadro Ling, Chagdud Tulku Rinpoche nasceu no leste do Tibete (Kham), em 1930. Desde criança, recebeu treinamento rigoroso e aprofundou os estudos em retiros extensos. Ele tinha uma afinidade especial pelas artes sagradas e pela medicina tibetana, e era famoso por sua voz, como cantor.
Em 1959, escapou da ocupação comunista do Tibete e viveu exilado em comunidades de refugiados na Índia e no Nepal até se estabelecer nos Estados Unidos, em 1979. A pedido dos seus alunos ocidentais, criou a Fundação Chagdud Gonpa, uma rede de centros da linhagem Nyingma do Budismo Vajraiana. Em 1994, mudou-se para o Brasil e começou a construção do seu centro principal, o Khadro Ling, no Rio Grande do Sul. Quando morreu, em 2002, ele havia fundado mais de 20 centros no Brasil, Uruguai e Chile.
Ao viajar e ensinar constantemente, tornou-se o lama (professor do budismo tibetano) do coração de centenas de alunos e foi uma inspiração para milhares. Quando lhe perguntavam por que, aos 64 anos, mudou-se para a América do Sul ao invés de permanecer nos EUA, respondia: “percebi a fé dos brasileiros e o seu interesse no Budismo e quis ensiná-los”.
Sua esposa, Chagdud Khadro, é a diretora espiritual dos seus centros na América do Sul. Seu filho, Tromge Jigme Rinpoche, treina alunos na meditação mais elevada de Dzogchen e é o mestre de cerimônias e iniciações nos centros do Chagdud Gonpa nas Américas do Norte e do Sul. Chagdud Rinpoche também teve uma filha, Dawa Lhamo, que reside no Colorado.
Se eu tivesse que deixar somente um legado, seria o da sabedoria da motivação pura. Se eu tivesse que ser conhecido por um único título, seria o de lama da motivação… No momento em que os nossos corações se inclinam à compaixão por todos os seres, a nossa motivação se expande em direção à motivação todo-abrangente de um bodisatva, dizia Rinpoche.
Chagdud Khadro
Chagdud Khadro conheceu Chagdud Tulku Rinpoche em março de 1978, casou-se com ele em 1979 e foi aluna dedicada. Ao ordená-la lama em 1997, Rinpoche designou-a para ser a futura diretora espiritual do Chagdud Gonpa Brasil. Na função de lama dirigente após a morte (transição) de Rinpoche, Khadro tem se concentrado em dar continuidade ao treinamento vajraiana estabelecido por ele.
Durante o tempo vivido com Rinpoche, Khadro recebeu treinamento constante, que abrangeram desde a organização de atividades do Darma, até os ensinamentos e prática do Vajrayana. Ela colaborou em sua autobiografia ‘O Senhor da Dança’ e, sob sua orientação, compilou comentários de seus ensinamentos. Antiga diretora e editora da Padma Publishing nos EUA, Khadro editou muitas traduções de obras tibetanas. Após sua mudança para o Brasil em 1995, passou a trabalhar na publicação de traduções para o português e o espanhol de textos do budismo tibetano.
À coluna, ela – que só se comunica em inglês - afirmou que a reabertura do complexo de Três Coroas (realizada no dia 19 de maio) era motivo de ‘extrema alegria’, ao representar a possibilidade de retomada dos trabalhos do Centro, que manteve as portas fechadas por dois anos e dois meses, em razão da pandemia.
Khadro também falou a respeito do poder da meditação, antecipando que todos podem praticá-la, devendo, preferencialmente, encontrar a motivação para tanto a fim de que o aproveitamento seja o melhor possível.
Ainda segundo Khadro, do ponto de vista do budismo, nossa mente não está no estado natural ou normal e, por isso, a percepção que temos de nós mesmos, dos outros e do universo é enganosa, confusa e ilusória. O propósito último do caminho é atingir o estado de sabedoria, de “normalidade”, a liberdade dessa percepção errônea que o budismo chama de ignorância. “Procurado por diversas pessoas, Buda ensinou de diferentes formas de acordo com a necessidade dos que o ouviam. Por essa razão, pessoas ou grupos diferentes receberam ensinamentos conforme o temperamento, personalidade, cultura, habilidade e conhecimento que possuíam”, explica Khadro.
O que é Budismo?
Budismo, hoje, refere-se aos ensinamentos transmitidos no séc. VI a.C. por Sidarta Gautama, o Buda Shakiamuni. Em essência, Buda ensinou para as pessoas o caminho da sabedoria, isto é, como alcançar a completa liberdade do sofrimento, a iluminação. O potencial para se tornar um Buda é inerente a todos e, com desejo e empenho, é possível alcançar tal realização. Sabedoria ou prajna, em sânscrito, num sentido comum, significa natureza absoluta, “a mente em estado de absoluta normalidade”.
Budismo é filosofia ou religião?
Não existe uma resposta definitiva para essa pergunta. Chagdud Tulku Rinpoche costumava dizer que o conhecimento da filosofia embasa a prática religiosa. Ou seja, da mesma forma que é importante saber por que estamos meditando, também é fundamental que coloquemos em prática nas cerimônias e no dia-a-dia o que aprendemos intelectualmente. Alguns professores preferem definir o budismo como um estilo de vida. O ponto principal é chamar a atenção para o fato de que a prática espiritual não é distinta ou separada das atividades do cotidiano. É comum considerar a prática espiritual como incompatível com as atividades comuns. No entanto, mestres budistas afirmam que prática espiritual, em essência, significa termos um bom coração: desenvolvermos a habilidade e o hábito de lidar com o cotidiano propelidos por qualidades como a compaixão, bondade, amor, generosidade, paciência, respeito e tolerância. Assim construímos paz e harmonia internas e nos transformamos em uma fonte de benefício para os outros. Isso é a base para criarmos a interdependência ou causa para boas experiências no futuro desta vida e em vidas futuras.
Quem é o Dalai Lama?
Dalai Lama é o líder político do povo tibetano e líder espiritual de todos os budistas tibetanos. Como líder político, ele dirige o governo tibetano exilado na Índia desde a invasão comunista no Tibete na década de 50. Em seu papel de líder espiritual, serve como referência aos budistas tibetanos do mundo inteiro através de ensinamentos, orientação e de seu exemplo.