Os viticultores erechinenses começaram a colheita da uva com expectativa de baixos rendimentos ao final da safra. Conforme estimativa da Emater-RS/Ascar, a produção de uva em Erechim terá uma quebra de cerca de 50%, chegando a 600 toneladas a serem colhidas.
Para o chefe do escritório municipal da Emater-RS/Ascar, Adriano Szynkaruk, o motivo da queda na quantidade produzida é devido as intempéries climáticas ocasionadas pelo efeito El Niño. “Na época da floração, em outubro e novembro, tivemos um excesso de chuva. Foram mais de dois mil milímetros acumulados em três meses e os problemas foram se manifestar agora, com perdas muito altas na produção”.
Qualidade
Os produtores e assistentes técnicos estavam preocupados com a qualidade da uva que poderia ser afetada pelas altas precipitações. Szynkaruk comentou que “ainda assim temos uma boa qualidade de uva considerando todo o problema climático ocorrido nos últimos meses”.
Em comparação com o ano passado, “foi um período mais seco, tivemos perda também, mas a qualidade da uva estava melhor”, complementa o chefe do escritório municipal.
Erechim conta com 60 hectares de videiras, desses 2,5 ha pertencem ao Marcelo Balestrin, produtor rural e morador da Linha 4 São João, interior de Erechim. Há 15 dias, ele iniciou a colheita da uva na propriedade e já pôde observar a queda na produção.
Perda total
Balestrin calcula uma perda entre 70% e 80%. A área destinada para a atividade é dividida em três parreiras com pouca distância entre elas. Dentro da mesma propriedade são encontrados cachos de uvas bem desenvolvidos e ao mesmo tempo outras variedades não tiveram amadurecimento completo ou foram afetadas por doenças.
“Essa safra tem os dois lados. A Casca Dura e a Bordô tiveram uma perda de 10% a 15%. Já a Isabel chegou a 100%. Acho que nem vamos colher, foi bem complicado. Isso em virtude do granizo e excesso de chuva, principalmente na floração, pois a gente não conseguiu fazer o controle de doenças. O tempo não permitiu”, relata o produtor.
101 anos
Marcelo faz parte da terceira geração da família que trabalha na atividade. Seus avós vieram de Pinto Bandeira e se instalaram na localidade em 1923. Atualmente, os mais de 5500 pés de videira têm capacidade para produzir até 70 mil kg. São 42 variedades plantadas com destaque para uvas americanas como Isabel, Niágara Branca e Rosa, além de Casca Dura e Moscato.
Comercialização
Cada cultivar é destinada para algo específico. A maior parte da uva é vendida in natura. “O pessoal faz questão de vir aqui comprar, passear em finais de semana, tirar a própria fruta debaixo do parreiral. Eles também compram para fazer suco, vinho e derivados”.
Quem busca a uva direto nas videiras paga na faixa de R$ 4 a R$ 5 o quilo. Balestrin relata sobre um cliente que há 30 anos adquire a fruta para produzir vinho. “Um ano assim não vamos ter muito lucro, mas também não podemos explorar muito no preço, porque é uma questão de confiança, é um cliente que pega todo ano. A gente tentou fazer um meio termo pra não ficar ruim para ninguém e poder atender todo mundo”.
Continuidade
O negócio familiar é reforçado a cada ano pelo viticultor. Conforme Balestrin, a ideia para a próxima safra será instalar um sistema de irrigação por gotejamento e implantar novas variedades.
“O que observamos é que de curto a longo prazo, se quiser se manter na atividade é necessário optar por novas tecnologias e mudar um pouco com o padrão de uva que tem na região”, argumenta.
Tendências
A substituição de cultivares de videiras por outras mais resistentes é uma busca pela fruta com maior qualidade e produtividade. De acordo com o produtor, não existe mais vantagens para continuar com os mesmos tipos de uva.
“Se ficar batendo na tecla das mesmas variedades, teremos cada vez menos lucro, pois são uvas que estão entrando em uma geração ultrapassada, porque elas não têm mais tanta resistência a doenças e a questão de produção está decaindo”, explica.
Nova era
As novas tecnologias são mais adaptáveis, resistentes e alto rendimento. “O principal foco é utilizar menos agrotóxico, então já tem uma tecnologia voltada para esse sentido. Uvas melhoradas geneticamente para produzir sem defensivos. Isso será bom para o produtor e para o consumidor. Uma nova era está chegando”, disse.
Como colher bons frutos?
Segundo Szynkaruk, colher uvas com elevada qualidade vai além das condições climáticas e das características da cultivar. “Precisa de bom manejo do produtor, seguir os tratamentos recomendados para que não haja disseminação de doenças. Além disso, precisamos monitorar esse parreiral para fazer as intervenções, principalmente na época da floração, já que os fungos que ocorreram nessa fase estão se manifestando agora e diminuindo a produtividade e a qualidade da uva”.
A colheita na propriedade de Marcelo Balestrin se estende até, aproximadamente, o dia 10 de fevereiro.