Qualidade de vida e amor pelo trabalho. Esses motivos fizeram Paulo Cesar Tessaro, 51 anos, voltar para casa dos pais para investir na produção de morangos e hortaliças. Formado em agronomia, saiu jovem de casa para estudar e ao longo do tempo ganhou experiências profissionais em uma empresa que produzia a fruta.
“Chega um momento que bate o estresse e você decide dar uma mudada”, conta o agricultor, que por causa da idade dos pais resolveu retornar para a propriedade, localizada em Machadinho.
Cantinho ao lado da casa
Paulo apostou no empreendimento familiar e no cultivo de morangos. A produção iniciou em pequenas quantidades, ao lado da casa, com o seu pai, Wilson Tessaro. Anos mais tarde, por iniciativa do filho, o negócio foi ganhando forma.
“Morava em Fraiburgo/SC, e tinha atrás da minha casa dois canteiros de morango. As mudas peguei de um senhor, plantei e lançaram bastante estolões. O pai estava lá e pediu algumas mudas, tirei tudo o que tinha e entreguei para ele que plantou ao lado da casa. Um dia, chegou alguém, enxergou bastante moranguinho e perguntou: ‘Não quer vendê-los?’. Foi lá, tirou 250g, 300g e o pai vendeu. Achou interessante. Reproduziu as mudas. Plantamos 150 a 200 mudas no segundo ano, mas ficamos nisso, algo pouco profissional, mais no fundo do quintal, na horta dele”.
Mudas importadas
No início dos anos 2000, a principal atividade na propriedade da família era a produção de leite e parte das hortaliças folhosas, que Wilson vendia de casa em casa aos moradores da cidade. Foi depois que Paulo se mudou para Vacaria para trabalhar em uma firma especializada em frutas vermelhas que a produção começou a aumentar.
“Estavam importando mudas do Chile. E perguntei se poderia importar um pouco para mim. Assim você consegue o contato de onde comprar o plástico, as mangueiras de gotejamento, fertilizantes ideais, os produtos que você vai aplicar para que os morangos tenham uma qualidade ideal”, falou Paulo.
Nova técnica
Com essa iniciativa, foram plantadas cinco mil mudas no terreno da família, em canteiros a nível do solo com túnel tradicional. Depois surgiu uma nova técnica de plantio, um sistema alto do chão produzido com substrato.
“‘Não, isso é para uma grande empresa, não é para mim’, meu pai respondeu. Eu disse: ‘Vamos fazer, eu te ajudo’. E tive que passar um migué nele. Como ele quase não me visitava em Vacaria, eu vinha visitá-lo. Então, falei para ele pegar um ônibus para cá que na semana que vem estava de aniversário e queria um presente deles. Eles chegaram bem certinhos no dia do meu aniversário. Um dia antes liguei para um amigo meu, fornecedor de mudas e produtor de morangos de Caxias do Sul. ‘Você tem um sistema assim, posso te visitar, levar o pai? - Claro que pode, será um prazer te receber’.
Pioneiro
Dessa forma Paulo levou os pais para a Serra Gaúcha conhecer um formato de produção de morango e “ficaram encantados com o que viram”.
A partir disso, resolveram colocar duas estufas com sistema de elevação para os morangos e uma de hidroponia. Conforme o agricultor, foi o primeiro plantio regional da fruta desenvolvido nessa técnica.
“Vinha para cá visitá-los e diziam que isso iria se tornar um ponto turístico, porque o pessoal chegava aqui e adorava. Montamos isso para ser um local de produção, só que as pessoas querem ver exatamente isso. Muita gente me disse: ‘Não enfeite, queremos ver o dia a dia de vocês e como vocês trabalham, de chapéu, de bota suja’”.
Brilho do Sol
A visitação começou a ficar recorrente e eles permitiam os clientes colher os morangos direto do pé. Depois de perceber que era possível investir mais dentro da propriedade, Paulo junto com a esposa Jane decidiram vir morar em definitivo para Machadinho. Assim surgiu a Chácara Brilho do Sol.
“Meu pai é o padrinho disso. Ele resolveu que iria colocar Brilho do Sol, porque estávamos conversando em um dia chuvoso, com luminosidade baixa e não tínhamos morango para venda, porque naquele dia a fruta não estava se desenvolvendo devido a falta de luz solar. O pai colocou o nome Chácara Brilho do Sol, porque nós precisamos do sol, o brilho do sol faz com que a gente cresça”.
Ampliação
O turismo rural foi uma prática integrada à rotina da Chácara, além da produção orgânica e sustentável. A Chácara Brilho do Sol conta com 24 estufas de cultivo para morangos, uvas, hortaliças e temperos em uma área de dois hectares.
“A gente só não ampliou mais, porque chegamos nas divisas. Me orgulho em dizer que somos duas famílias a minha e a do pai e mais quatro ou cinco que trabalham diretamente conosco e buscam seu sustento aqui dentro também”.
Criatividade para continuidade
Estar no próprio lar e trabalhar no próprio negócio é uma satisfação única para Paulo. “Nossa maior paixão é o nosso lugar. Dificuldades e problemas existem, o dia a dia não é fácil, é trabalhoso, penoso, tem dias de frio, sol forte, chuva e já passamos por temporal, algumas estufas foram arrancadas, faz parte. Mas quando você gosta daquilo que você faz, sente prazer em ver uma planta crescer, você acaba se doando para isso”.
A ideia da família é investir em tecnologia que facilitem o trabalho e o manejo da produção como irrigação automatizada e projetos a longo prazo voltadas para o turismo rural, energia sustentável e produtos com frutas silvestres.