Já é um lugar comum fazer-se menção ao filósofo e escritor sul-coreano Byung-Chul Han e à sua obra “Sociedade do Cansaço”, de 2010, quando se tematiza o tema do cansaço como um dos traços mais característicos da vida e do mundo contemporâneos: uma vida e um mundo que impõem a indivíduos e grupos sociais uma realidade de exaustão, extenuação e esgotamento. Essa realidade, que ao mesmo tempo é um elemento da crise contemporânea e uma substância anestesiante da imaginação – inclusive política – de que necessitamos para superar essa mesma crise, estaria diretamente ligada a um excesso (crescente) de “demandas” e pressões de diversas naturezas e que vêm de todas as direções: do presente, do passado, do futuro, do trabalho, da cultura, das redes sociais, dos outros, de nós mesmos...
De um lado, é preciso “performar” uma odisseia – em competição aberta com o entorno - de realização em todas as dimensões da vida, em um cotidiano multitarefas e sem “nãos”; de outro, burnout, depressão e cama em todas as mínimas horas (decrescentes) disponíveis, não descansando, mas “scrollando” a tela do celular. Não seria, exatamente, a sociedade disciplinar foucaltiana, em que a opressão, tipicamente, vem de fora: o “vigiar e punir” está internalizado; não é só um “cansaço”, mas um cansaço resignado.
E, a propósito de rolar a tela do celular, a pessoa responsável por uma página sobre livros que sigo no Facebook, que se apresenta como “Best Book Therapist”, postou, exatamente no dia em que escrevo esta coluna (quinta-feira), seis tipos de descanso relacionados ao cansaço apontado pela literatura que de variados modos e perspectivas (não necessariamente o modo e a perspectiva de Byung-Chul Han) trata do tema. Seriam eles (traduzo com pequenas modificações e acréscimos; mantenho as aspas):
“Descanso mental: dê um tempo para a cabeça (‘take a break from thinking’); tente métodos simples de meditação, ou faça uma caminhada silenciosa, sem celular e fones de ouvido.
Descanso físico: trate de encontrar meios de dormir bem, de alongar-se e de praticar algum tipo de exercício físico que não represente mais estresse. Ou só fique ‘de boas’, sem fazer nada.
Descanso emocional: seja honesto com o que você sente, com suas emoções e com sua intuição. Use o ‘dizer não’ como um instrumento para administrar e ajustar as ‘demandas’.
Descanso social: Repouse sozinho/a ou com um grupo reduzido e próximo de familiares e amigos. Como se dizia no tempo da pandemia, evite ajuntamentos maiores e aglomerações (‘large gatherings’).
Descanso espiritual: Encontre significado(s) e propósito(s) que sejam verdadeiramente seus e que possuam ‘encaixe’ social e político suficiente.
Descanso sensorial: ‘desplugue-se’ de telas. Curta e cultive momentos de quietude.”
São coisas bem apanhadas e úteis, não são? É claro que essas “dicas” são limitadas (não vão resolver o problema em sentido cultural amplo) e estão vazadas em um estilo de autoajuda, encontrando-se, portanto, filosófica e epistemologicamente distantes, como num jogo de escalas (ou mesmo num outro jogo), de reflexões como a de Byung-Chul Han. Também: são coisas mais fáceis de se dizer que de se fazer. Mas, lendo e trabalhando, topei com as duas formulações juntas, e quis partilhá-las com o caro leitor/a. Aliás, duas não, três: lembrei que outro sul-coreano, Haemin Sunim, inicia sua trilogia sobre o que o budismo tem a oferecer à vida contemporânea com um capítulo chamado... “Descanso”. E, na tradição budista, com uma pergunta que não se dirige em primeiro lugar para o mundo, mas que é um autoexame: “Por que estou tão ocupado?”
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