Por que se lê? Somos a espécie leitora, antes de ser a espécie fabuladora. Viver é um exercício de leitura: tu estás sempre lendo a si mesmo, aos outros e ao mundo - e lendo as relações entre tudo isso, em todas as direções. Pegadas no chão, runas, estrelas. As palavras do sábio da tribo, Montaigne, Clarice. As instruções de montar o ventilador. Uma habilidade excelente de leitura, uma vida rica - maior. Uma habilidade pobre de leitura, uma vida precária - menor (Confúcio escreveu que quem não lê vive a vida como se estivesse com o rosto voltado para uma parede - o nariz encostado na parede). O tamanho do Universo é o tamanho da linguagem que tu tens capacidade de mobilizar no exercício da vida. O tamanho do Universo é, assim, o tamanho da tua biblioteca: não a biblioteca física, de livros possuídos, comprados, mas a biblioteca que tu consegues considerar, imaginar.
Por que se leem livros? Os livros te ajudam a encontrar, formular, cultivar não respostas - mas perguntas. A lapidar as perguntas. Não há respostas (não sei se tu já percebeste, mas estaria meio que sobre a hora). As perguntas disparam uma flecha cavalheiresca, zen, sagitária no coração do sentido, dos sentidos da vida, do Universo e de tudo o mais. Uma flecha no coração do significado, da verdade. Dos significados, das verdades. Tu eu não sei, mas eu leio, ou tento, para localizar, na Biblioteca Universal, indícios desse sentido - para encontrar mentes que deixaram esses indícios ali. Eu leio, também, para recuperar o diálogo interrompido com meu avô, o Vô Torquato Severo Neto, que morreu quando eu tinha doze anos – livros são a nossa única chance de driblar a morte.
E tu acabas encontrando padrões de sentido, buscando-os ou não - não tem jeito. Por exemplo: compreender e enfrentar o medo. Isso está nos Vedas ("abhaya" = destemor), e é uma qualidade contida na "arete" - a virtude do herói grego -, e está em todo lugar. Está em Heitor, na defesa de Tróia. Está em Freud. Está no Sr. Miyagi. Tu podes perceber, e contrastar isso com a tua própria experiência, agora. Tem alguma coisa de crucial aí. Outro padrão? Este: gente apontando generosamente, insistentemente para os clássicos, para poucos livros, para um livro. Isso está em todo, todo, todo lugar. Em Thoreau, em Flaubert, em Alberto Manguel, em Deng Ming-Dao. Tem alguma coisa de crucial aí, também. Um mergulho, uma verticalidade. Mas nós... Ah!, nós não: o que nós queremos, e o que na melhor das hipóteses fazemos - eu também -, é cambalear para os lados, horizontalmente, tropeçar enfeitiçados, vaidosos, pela quantidade meramente extensiva, sem dialética, buscando sempre mais um livro, mais um filme, mais uma série de televisão que nos trague (de "tragar") na ilusão do saber e que principalmente nos distraia - de quê?