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Expressão Plural

A orfandade adulta

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Por Fernanda Barbosa
Foto Arquivo pessoal

Quando se fala em órfão, a primeira imagem que me vem na mente são crianças no pátio de um orfanato. A palavra “órfão” me remete imediatamente a criança que perdeu seus pais, talvez pela necessidade de assistência e cuidados que este ainda demanda. Mas, e os adultos que perdem seus pais, não são igualmente órfãos?

                A verdade é que a autossuficiência do adulto mascara a orfandade que se instala. Ninguém nos prepara para viver em um mundo onde nosso pai e mãe não existam, um mundo no qual a tua imagem e concepção de lar primeiro já não existe mais. É avassalador desmontar a casa que um dia abrigou sorrisos, discussões, momentos de acolhimento, muitas vezes de desentendimento, que fazem parte da rotina de qualquer família, mas que não invalidam os laços de pertencimento. Perder essas pessoas faz brotar saudade até de brigar. Ser órfão adulto é engolir o choro, fazer cara de resignado e seguir. O mundo não tem compaixão de quem já sabe se virar e as pessoas que te dariam colo são exatamente aquelas cuja partida nos gera imensa tristeza.   

                Essas perdas nos fazem perceber o quanto o tempo é avassalador, não perdoa, e leva embora os pilares que nos sustentam. Em quem ficou, a culpa gera sempre um questionamento: o que eu poderia ter feito a mais que evitasse sua partida? A resposta é nada. Somos feitos de instantes e as vezes gostamos de brincar de Deus, como se tivéssemos poder para alguma coisa milagrosa, magnífica, que mudasse o curso e o destino da vida de quem amamos.

                Na caminhada terrena a única certeza é a morte e mesmo parecendo o clichê mais antigo, mesmo tendo a certeza de nossa finitude, vivemos como se nunca fossemos morrer e morremos como se não houvéssemos vivido. A ideia errônea de eternidade, de ausência do fim, talvez até uma visão heroica que criamos de nossos pais, deixando de vê-los como meros mortais, faz com que a sobrevivência num mundo sem eles pareça uma dimensão estranha e inacreditável de realidade, um mundo possível indesejado. 

Hoje faz ano eu perdi minha mãe. Nosso relacionamento não era um conto de fadas, como o imaginário romantizado costuma difundir por aí sobre as relações mães e filhas. É importante compreender nossos pais como produto de seu tempo, sua época. O problema da partida dos pais é que nós ficamos à deriva de nós mesmos, a deriva de “ser filho” que passa a ser “órfão”. Mãe, estas poucas palavras são para você.   

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