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Expressão Plural

Três toques, uma tábua de naufrágio

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Elaborei este texto com três toques de leitura e lembrei do verso de Walt Whitman: o que pode haver de maior ou menor que um toque? E, ao lembrar, me fiz uma pergunta de feitio filosófico: o que estamos fazendo quando damos uma “dica de leitura”? Ora, desejamos que alguém aprecie um livro cuja leitura nós mesmos apreciamos, é claro – mas isso pode ter outros significados envelopados.

​Convocar (evocar? Invocar?) nossas leituras é fazer o exercício de recolher os cacos do que "sabemos" e realizar o esforço de entrever os sentidos dados, existentes no mundo, e/ou atribuir, inscrever, tatuar sentidos ali onde não há nada. Eles - esses cacos, esses livros - são uma mensagem na garrafa, tábuas de um naufrágio. São os gravetos com que faremos a fogueira em torno da qual nos sentaremos para partilhar nossa experiência - porque isso, essa partilha que incide sobre a experiência do outro e a multiplica por dez mil, é o que nos fez humanos lá atrás e é o que nos faz humanos agora - in progress -, e é também tudo o que podemos fazer (não sei se vocês já repararam). É o nosso superpoder.

​Se não descobrirmos o significado, ou se não tivermos engenho e arte para criá-lo, teremos pelo menos dividido nossa perplexidade, protegendo-nos juntos do temporal. E esse estarmos juntos, afinal, pode ser o próprio significado. Dar uma dica de leitura é, assim, uma expressão oculta desse desejo de partilha. Um espacinho sob o guarda-chuva.

Toque 1: Trançando duas coisas separadas e alcançando um terceiro sentido

​"Em seu leito de morte, Gertrude Stein ergueu a cabeça e perguntou: 'Qual é a resposta?'. Quando ninguém falou, ela sorriu e disse: 'Nesse caso, qual é a pergunta?'." (Epígrafe do livro de Alberto Manguel "Uma história natural da curiosidade"). Isso me fez lembrar aquela historinha que relata o pasmo/assombro da sangha (a comunidade de praticantes) quando Sidarta Gautama, o Buda Shakiamuni, perguntado sobre o que lhe dissera o Buda Dipankara (um buda ancestral, de outra "era"), a quem havia encontrado quando em estado de nirvana (um estado descrito como livre de conteúdos, de referenciais e de referências) - respondeu: “Nada...”

Toque 2: Heidegger, seu sabido

​Leio que após a publicação de "Ser e tempo", em 1927, Heidegger progressiva e deliberadamente - num movimento que jamais teria abandonado e que só aprofundou ao longo das décadas -, afastou-se da abordagem das questões que lhe interessavam feita em termos filosófica, intelectual e academicamente rigorosos (filosofia em "sentido estrito"), passando a utilizar uma linguagem para ele "mais rica e profunda", a da poesia. Preciso começar a estudar mais biografias e passar a ler só gente que faz esse tipo de movimento...

Toque 3: Cioran, Nietzsche, Hamlet e o "não agir"

​Em um livro sobre o filósofo romeno Emil Cioran, encontro uma citação de Nietzsche em que este aborda uma questão que para mim está entre as mais importantes - a da não ação, seja no caso do princípio da não-ação (wu wei) de Lao Tsé, seja no caso de Arjuna e Krishna no campo de batalha de Kurukshetra, seja no caso do Hamlet de Shakespeare, seja no caso do Bartleby de Melville (tal como lido por Borges ou por Agamben, por exemplo). Acho que Nietzsche nunca esteve tão próximo de Schopenhauer como nesta passagem: "O homem dionisíaco tem semelhança com Hamlet: ambos lançaram uma vez um olhar verdadeiro na essência das coisas, conheceram, e repugna-lhes agir; pois sua ação não pode alterar nada na essência eterna das coisas, eles sentem como ridículo ou humilhante esperarem deles que recomponham o mundo que saiu dos gonzos. O conhecimento mata o agir, o agir requer que se esteja envolto no véu da ilusão - esse é o ensinamento de Hamlet (...), é o verdadeiro conhecimento, a visão da horrível verdade, que sobrepuja todo motivo que impeliria a agir, tanto em Hamlet quanto no homem dionisíaco. (...) Na consciência da verdade contemplada uma vez, o homem vê agora, por toda parte, apenas o susto ou absurdo do ser (...)."

​Que tal?

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