A primeira vez que eu soube da existência da expressão “Ferida do Pai” (Father Wound), no sentido de uma ferida que o pai possui, de um lado, e que é produzida pelo pai, que vem do pai, de outro, foi através de um texto do escritor e filósofo sino-americano Deng Ming-Dao (um mestre taoísta, justamente uma tradição religiosa, o Taoísmo, em que, dizem os textos clássicos, a linhagem paterna “prevalece”). O termo se refere ao “absenteísmo paterno”, seja emocional ou físico, ou ambos, que se caracterizaria não apenas pelo abandono “simples”, mas pela criticidade excessiva, pelo tratamento negativo ou pelo abuso no relacionamento com os filhos, ou com um filho ou filha em especial. A Ferida do Pai é carregada vida afora pelos filhos e filhas e compromete seu futuro de muitas e diferentes formas – não raro de modo permanente. Suas consequências envolveriam de baixa autoestima e baixa autoconfiança a ansiedade e depressão, e ainda a sentimentos de raiva e comportamento violento, entre outras. Uma delas, porém - a repetição dos mesmos padrões em sua própria “parentalidade” -, é apontada como uma das consequências mais sensíveis, uma vez que ela está relacionada tanto à permanência no tempo – e mesmo no tempo da longa duração, de geração em geração - da Ferida, como à sua possibilidade de cura, de quebra das correias psíquicas e socioculturais de transmissão.
Nas palavras de Deng Ming-Dao: “Ver uma criança em sofrimento sob as mãos de quem justamente deveria mostrar-lhe amor e proteção, é horrível, devastador. Nós detemos homens que batem em seus filhos em público ou os esquecem sufocando em carros fechados, e podemos fazer algo quando os abandonam. Mas em suas vidas privadas, em casa, não sabemos o que acontece. Entre a habilidade que os homens têm de esconder seu mau comportamento e os pontos cegos que a sociedade cria para a toxicidade masculina e patriarcal, um número enorme de crianças vive e cresce em dor e confusão.”
Figuras femininas, em geral avós e mães, atenuam tais circunstâncias em seus círculos familiares e mesmo para além deles. Podem inclusive fazer cessar tais circunstâncias, em determinados contextos. Mesmo assim, todavia, a “norma” é que o pai não seja, ou não possa ser desafiado ou de algum modo controlado no interior das famílias, e muitas vezes se permite que ele fira as crianças sem qualquer limite.
“Um bom pai é um ‘nutridor’; ele é gentil, protetor, forte, sábio, generoso, apoiador e um constante “líder de torcida” (“cheerleader”, no original) de suas crianças – e da mãe delas. Ele deve impulsionar seus filhos tão alto quanto eles possivelmente possam ir. E as crianças, por sua vez, devem saber que sempre poderão confiar nele, sentir-se seguras com ele, e recorrer a ele em caso de qualquer problema. E ele deve sempre acreditar no que elas lhe dizem.”
“Tantos de nós desejam ser pais ‘perfeitos’ – mas isso é impossível. Tudo o que é preciso, tudo o que é possível, é estar presente, sempre. Simplesmente esteja lá, com amor, força e sabedoria, e tudo ficará bem. Sendo um homem, você talvez possua suas próprias feridas de pai. Mas se você tomar a resolução de fazer com que o trauma termine em você, recusando-se a transmiti-lo, poderá ser o homem, o pai, que seu filho precisa que você seja.”
Uma nota à maneira de conclusão: sobre a “Ferida da Mãe”, a respeito da qual pouco se fala, em comparação (dá para entender), sugiro a série de tevê “Respire!”, de Martin Gero e Brendan Gall (2002). Busca lá, caro leitor/a!