Trago, só um pouquinho editado, um excerto de JosteinGaarder (Ei! Tem alguém aí?- livro de 2008). São dois meninos que se encontram:
“— Mas por que você está se inclinando desse jeito?
— Lá – do planeta de onde eu venho – nós sempre fazemos uma reverência quando alguém faz uma pergunta fascinante. E, quanto mais profunda for a pergunta, mais profundamente a gente se inclina.
— Nesse caso, perguntei, o que vocês fazem quando querem se cumprimentar?
— Tentamos pensar numa pergunta inteligente.
— Por quê?
— Tentamos pensar numa pergunta inteligente para fazer a outra pessoa se inclinar.
Essa resposta me impressionou tanto que fiz uma profunda reverência, inclinando-me ao máximo.
— Por que você fez uma reverência? – perguntou ele num tom quase ofendido.
— Porque você deu uma resposta superinteligente para a minha pergunta – respondi.
Daí, numa voz bem alta e clara, ele disse algo que eu haveria de lembrar pelo resto da vida:
— Uma resposta nunca merece uma reverência. Mesmo se for inteligente e correta, nem assim você deve se curvar para ela. Quando você se inclina, você dá passagem, e a gente nunca deve dar passagem para uma resposta.
— Por que não?
— A resposta é sempre um trecho do caminho que está atrás de você. Só uma pergunta pode apontar o caminho para a frente.”
Sempre que me perguntam que respostas encontrei em uma vida (até agora) dedicada aos livros, eu respondo com dois “não é bem isso”: não é bem nos livros, mas na leitura, na prática da leitura (é diferente); e não são bem respostas que se encontram, mas perguntas, essencialmente perguntas. Eu não sei se a biblioteca (a Biblioteca) vai te dar respostas (em um sentido relativamente trivial, vai), mas que vai te dar vocabulário e poder de reflexão para enunciar as perguntas, ah!, isso vai.
Porque é disso que se trata. Tenho encontrado por toda parte – o mais das vezes de forma implícita – a ideia de que a “resposta” nada mais é que o encontro e o preparo, o cultivo, o refinamento progressivo, a lapidação, o adensamento, a melhor formulação (cambiante no tempo), a “sutilização” das perguntas. O convívio com as perguntas. É um trabalho de curtimento, como o de “curtir” uma cuia de chimarrão, por exemplo. Pense na cuia de chimarrão de João da Cunha Vargas, assumindo a forma de sua mão. Ou na tarimba de Tibicuera. Ou na katana de Musashi. Ou no cajado de Gandalf. Quanto curtimento, quanto roçar de dedos, mãos, corpo, quanta reflexão está ali impregnada? Quanta energia?
Com as perguntas é assim também. Elas tornam-se tuas, tão profundamente tuas que se tornam quem tu és. E não precisam necessariamente ser complexas. Pode ser um (enganosamente) simples “Por quê?”, como no caso do lamento da criatura de Frankenstein, que ecoa o de Adão. Só duas palavras.
As perguntas disparam uma flecha cavalheiresca, zen, sagitariana, mochileira, no coração do sentido, dos sentidos da vida, do Universo e de tudo o mais. E as respostas, quando se apresentarem assim, se tu reparares bem, serão tanto mais interessantes quanto mais grávidas de novas perguntas estiverem. Elas são esporos, na real. Até podem ser chamadas de respostas, mas só por um tempinho curto – até o parto. Dar aulas não é fazer perguntas levitarem e pairarem no ar, como em Sociedade dos Poetas Mortos?
Com o nem tão fictício assim Kwai Chang Caine, consideremos a ideia de “não conhecer todas as respostas, mas compreender as perguntas”. Apontando e abrindo (às vezes a facão) o caminho à frente. Reverentemente.