Desde os primeiros dias do ano, a Venezuela entrou em uma fase de intensa incerteza política e diplomática após a prisão do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, durante uma operação militar conduzida por forças dos Estados Unidos em Caracas.
Com a ausência física de Maduro, a Vice-Presidenta Delcy Rodríguez foi empossada como presidente interina, respaldada por decisões internas da Suprema Corte venezuelana.
Dentro este cenário há, de um lado, a possibilidade da volta para casa dos venezuelanos que atualmente vivem no Brasil e de outro a preocupação do que pode ocorrer com relação mão de obra local, visto que hoje Erechim emprega uma grande quantidade no frigorífico Aurora, indústrias e supermercados locais. Ou seja, uma faca de dois gumes que começa a ser pensada a partir de agora.
Sindicato Alimentação
Para Diego Lauer, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação de Erechim, também existe uma certa preocupação, pois a categoria tem uma grande mão de obra atuando junto ao frigorífico da Aurora, ou seja, vê com certa preocupação com relação a possibilidade de os venezuelanos voltarem a sua terra natal.
“De um lado ficamos felizes pelo fato de poderem acenar com a possibilidade de poderem voltar para casa, e por outro lado a preocupação do que isto possa acarretar com relação a saída da mão de obra local, principalmente porque a jornada deles é diferenciada dos brasileiros, ou seja, uma faca de dois gumes. A mão de obra brasileira não faz a mesma jornada, restringindo-se de segunda a sexta-feira junto aos frigoríficos”.
“Temos um grande carinho pelos venezuelanos que também fazem parte os nossos associados e direção, muitos já constituíram família por aqui, estão estabelecidos. E bom ter eles conosco, mas não podemos deixar de ver a esperança que a grande maioria tem para poder retornar”.
Prefeito Paulo Polis
Para o prefeito Paulo Polis, é importante e estratégico que os venezuelanos tenham vindo para Erechim e se integrado com a nossa capacidade de trabalho nas empresas e que muitos já tenham a sua família estruturada, mas acredita que muitos irão construir a sua vida por aqui mesmo.
“Acho um pouco precoce a possibilidade da saída deles neste momento, pois não houve mudanças na Venezuela com relação ao regime ou o jeito deles trabalharem, ou seja, não caiu o sistema, somente o presidente. É precoce sofrer por antecipação, mas é importante de se pensar, principalmente por causa do trabalho primário que não teria substituição neste momento, mas acredito muito que, pela qualidade da cidade, emprego, saúde, educação e segurança, a grande maioria vai querer ficar por aqui”.
Sindilojas
A possibilidade de mudanças no cenário político da Venezuela, com a eventual saída de Nicolás Maduro do poder, reacende uma preocupação concreta no setor produtivo de Erechim e da região do Alto Uruguai: o impacto direto na disponibilidade de mão de obra. A avaliação é do presidente do Sindilojas Alto Uruguai e vice-presidente da Fecomércio-RS, José Gelso Miola, que chama atenção para a forte dependência das empresas locais em relação aos trabalhadores venezuelanos.
Segundo Miola, o comércio e, especialmente, a indústria regional já enfrentam uma escassez estrutural de mão de obra, cenário que levou muitas empresas a buscar trabalhadores migrantes para manter suas operações. “Nós já temos uma falta muito grande de trabalhadores no país e, na nossa região, isso é ainda mais sensível. Hoje, recorremos de forma significativa à mão de obra venezuelana para suprir essa carência”, afirma.
Miola cita dados que demonstram o grau dessa dependência em empresas instaladas em Erechim e entorno. “Há casos em que 35% da mão de obra é formada por venezuelanos, em outras empresas esse percentual chega a 25% ou até 42%. São números expressivos, que mostram o quanto essas pessoas se tornaram essenciais para o funcionamento das indústrias locais”, destaca.
Nesse contexto, a possibilidade de parte desses trabalhadores retornar ao país de origem preocupa o setor empresarial. Para Miola, uma mudança no cenário político venezuelano pode gerar um movimento de volta que agravaria ainda mais a falta de trabalhadores na região. “Se isso acontecer, nós corremos um sério risco de perder uma parcela importante dessa mão de obra, o que teria impacto direto na produção, no comércio e na economia regional como um todo”, avalia.
O presidente do Sindilojas Alto Uruguai também faz uma análise mais ampla sobre o mercado de trabalho brasileiro, apontando que o atual quadro é influenciado por fatores internos. “Existe um número significativo de pessoas aptas ao trabalho que acabam não ingressando no mercado formal. Os benefícios sociais, da forma como estão estruturados, acabam desestimulando parte dessa população a buscar emprego”, observa.
Para Miola, o debate precisa ir além da conjuntura internacional e avançar sobre políticas públicas que incentivem o trabalho e a qualificação profissional, ao mesmo tempo em que reconheçam a importância dos imigrantes para a economia local. “Os venezuelanos têm cumprido um papel fundamental. O que defendemos é um olhar responsável para a realidade da mão de obra, porque sem trabalhadores não há como sustentar o crescimento das empresas e da própria região”, conclui.
CDL Erechim
Para a presidente da CDL Erechim, Débora Lunardi, ainda é cedo para qualquer movimentação por parte do povo venezuelano, mas que a grande demanda é na indústria local, onde causaria um impacto maior. “Ao mesmo tempo é muito precipitado para garantir o retorno deles a sua terra natal, visto que as coisas não vão mudar de uma hora para outra, e a grande maioria está estruturada em Erechim, ou seja, não é bem assim para eles largarem tudo e retornarem para um local inseguro. Poderá sim gerar um impacto, mas nossa força de trabalho vai conseguir, com o tempo, se adaptar a nova demanda, pois não iriam imediatamente embora”.