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Expressão Plural

Reinventar a roda

teste
Gerson
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

​Hoje eu quero fazer um papo-cabeça ao mesmo tempo geracional, cultural e filosófico, está bem, caro leitor/a? Se tu sentires alguma ironia no texto, ela será leve e afetuosa, beleza?

​No TikTok, uma jovem pergunta: “Só eu acho que o rock cantado em inglês fica melhor do que em português?”. A pergunta (só eu percebi, só eu reparei nisso?) vem acompanhada de centenas (milhares, sei lá) de comentários — concordando, discordando, debatendo como se o assunto tivesse surgido nessa última semana. Eu “voltei” o vídeo inúmeras vezes, fascinado: o olhar dela era o de Hipácia observando os planetas em órbita elíptica, o de Colombo botando o pé na América, o de Einstein depois de escrever a equação da relatividade. Fiz um apontamento em meu caderno: as aulas estão recomeçando, é isso o que me fez ficar preso naquele vídeo. Eu conheço essa gurizada de incontáveis carnavais. Já me irritei muito em minha carreira com isso, mas hoje acho uma graça comovente nesse tipo de inocência aguda, às vezes arrogante, outras vezes super sensível, quase sempre sutilmente desamparada, exploratória, ou tudo isso misturado, que a juventude revela.

​Não, não quero que esse papo-cabeça seja um “papo de velho”. E nem quero lembrar que a questão trazida pela jovem é debatida, só para ficarmos em termos de Brasil, desde os anos 1960, com a explosão da Jovem Guarda – que vivia essa tensão. Ao mesmo tempo em que artistas e bandas influenciadas pelos Beatles (ingleses) eram acusados de “americanização”, perguntas eram postas: cantar em inglês é mais “autêntico”? O rock só funciona na língua original? Traduzir é empobrecer? Vinte anos depois, na década de 1980, a situação como que se inverte: bandas como os Paralamas do Sucesso, Titãs, Legião Urbana, you name it, mostraram que o rock em português podia ser sofisticado, urbano, politizado, poético, tudo. E antes também, é claro: mencionemos apenas Rita Lee e Raul Seixas. Mas, nos 80, curiosamente, muita gente defendia exatamente o contrário do que a menina do TikTok defende hoje.

​A discussão, é claro, não é apenas sobre música: é simbólica. Trata de colonialidade cultural, desejo de pertencimento, identidade periférica (periferia do mundo), tradução como traição ou como reinvenção (a clássica questão da literatura), e umas quantas outras coisas. Também: não quero defender uma ideia do tipo Eclesiastes: não há nada de novo sob o Sol; ou do tipo Platão: tudo é lembrança, reminiscência; e nem mesmo do tipo André Gide: tudo já foi dito, mas como ninguém ouviu é preciso dizer sempre de novo. Não. Existem, sim, questões novas, ou que são examinadas sob novas abordagens, teorias, diferentes luzes, e que são ressignificadas o tempo todo. O novo existe, gente.

​Usemos com cuidado a palavra arrogância. A juventude não é arrogante – quando é - por maldade. Ela é arrogante, por assim dizer, por estrutura. Toda geração, toda, acredita estar inaugurando o mundo: olhemos para nossas crianças. Se um/a adolescente de 15 anos está escutando um solo de guitarra de David Gilmour, do Pink Floyd, em uma gravação de 1969, ele acha de verdade que é o primeiro ser humano a fazer isso na Via Láctea. Toda geração sente que sua percepção da vida e do mundo é mais “autêntica” que a das gerações passadas – principalmente a de seus pais e mães. Toda geração desconfia do passado, o que é extremamente saudável. Numa palavra: toda geração acredita estar inaugurando o mundo, e talvez precise ser assim. Isso não é um defeito, é um motor histórico.

​Eu sei que as redes sociais (o TikTok é uma rede social, né?) cria micro-bolhas onde as referências históricas se evaporam, a memória é comprimida de algum modo – a memória histórica, cultural, também -, e tudo parece novo. Se nós olharmos com honestidade intelectual para o fenômeno, a juventude sempre reinventou a roda. O novo, talvez, é que hoje ela reinventa a roda diante de uma audiência que é massiva e que é imediata, imediata demais.

​Aquela jovem do TikTok não sabe, mas está participando de uma conversa que atravessa seis décadas. Tudo bem. Cada geração acha que está começando o debate (a vida, o tempo), quando, na verdade, está apenas entrando nele (na vida, no tempo). E a vida e o tempo são um mistério para todas as gerações, sem exceção. Nisso, nenhuma novidade...

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