Com uma taxa de mortalidade de 10% dos enxames devido ao frio intenso durante o inverno, a safra de mel já iniciou na região do Alto Uruguai. Depois de dois anos frustrados por causa do clima, esta safra será positiva e os produtores terão o que comemorar e mel para vender.
A Emater Regional atende sete municípios da região, com 2.636 colmeias, abrangendo 343 produtores. A expectativa de produção se dá entre 15 e 25 quilos de mel/colmeia. De acordo com o agrônomo Vilmar Fruscalso, também devido ao frio do inverno deste ano, as floradas atrasaram e os enxames estão com dificuldades de retomar os trabalhos de produção de mel, mas isso não deverá comprometer muito a produção regional.
"Apesar do inverno rigoroso, a expectativa dos produtores é boa. Alguns esperam chegar até 30 quilos de mel/colmeia, com preço de comercialização na faixa de R$ 15 o quilo. Os preços mais comuns são de R$ 10 a R$12/quilo, mas, na venda direta ao consumidor, pode chegar a R$20/quilo".
Segundo dados do IBGE (2010), o Rio Grande do Sul é o estado que mais produz mel no Brasil, totalizando cerca de 400 mil colmeias, distribuídas em cerca de 27 mil apicultores, produzindo o montante de 7.500 toneladas de mel, onde a Região do Alto Uruguai corresponde a cerca de 18% de toda esta produção.
A apicultura é uma atividade de relativamente baixa importância econômica para a região Alto Uruguai, mas para algumas famílias gera uma renda considerável. Os investimentos são baixos, além de ocupar a mão de obra familiar, de otimizar o uso da terra, já que pode ser conduzida em terrenos montanhosos e em conjunto com outras atividades, como silvicultura e fruticultura. Por ser marginal nas propriedades, geralmente recebe pouca atenção e investimentos dos agricultores, o que tem comprometido a evolução tecnológica e consequentemente a produtividade dos apiários. "Visto que a produção de mel depende essencialmente do tamanho e sanidade dos enxames e das floradas das plantas melíferas, perspectiva de chuva abaixo da média para os próximos meses deverá beneficiar a produção", diz Fruscalso.
Jovens não querem dar continuidade à atividade
De acordo com o tesoureiro da Associação Getuliense de Apicultores (Agea), Gilmar Centenário, a expectativa desta safra é positiva em relação as duas safras anteriores. Isso porque, o clima da última por exemplo, foi bastante chuvoso entre setembro e fevereiro e, até agora, foi mais favorável na florada. No ano passado a produção teve quebra de 90%. A produção normal gira em torno de 18 a 20kg colmeia/ano.
"Para esse ano, quem fez manejo adequado, não ocorreu a enxameação e os enxames não ficaram menos populosos, logo não haverá diminuição na produtividade", diz.
A associação possui 32 associados da micro região de Getulio Vargas, que inclui os municípios de Estação, Ipiranga do Sul, Erebango, Sertão, Getulio Vargas e Floriano Peixoto. São 960 colmeias.
Conforme Centenário, a produção de mel vem reduzindo na região, porque os jovens não entram na atividade. "É uma atividade que exige bastante mão de obra, é muito penoso e os jovens acabam não se interessando", comenta.
Mortalidade de abelhas
O produtor Valdir Gaz possui 90 colmeias em Paulo Bento. Ele trabalha com apicultura há dez anos e comenta que há dois anos registra uma grande mortandade das abelhas. Ele atribui o fato com o elevado uso de agrotóxico das lavouras próximas. "Deveria haver um maior controle. Essa situação é geral em Paulo Bento", diz.
O professor da UFFS, Bernardo Berenchtein elenca alguns problemas na apicultura, os quais se iniciam na grande diferença de qualidade e quantidade de mel produzido entre os apicultores, o que ocorre em virtude do amadorismo de muitos acarretando um mel de menor qualidade e o profissionalismo de outros promovendo uma produção maior e de maior qualidade.
"Alterações climáticas, a falta de alimento para as abelhas (pasto apícola), o uso de monoculturas, como o milho e a soja, a alteração da paisagem rural, doenças causadas por parasitas; o mal uso de alguns defensivos agrícolas, que vale ressaltar que podem ter uso minimizado com práticas tais como a agroecologia, mas que são indispensáveis quando pensamos em produção em escala de alimentos, e ainda o sinergismo de todos estes problemas, têm gerado o Distúrbio do Colapso das Colônias (CCD), o qual vem dizimando em massa as populações de abelhas no mundo todo".
Conforme o professor, a redução do número de abelhas nas colmeias durante o inverno e outono, é algo comum, principalmente em locais onde há formação de neve e temperaturas muito baixas. No entanto, no ano de 2007, apicultores do mundo todo, mas principalmente dos EUA e da União Europeia relataram uma grande diminuição das abelhas em seus apiários.
Os registros marcam uma redução da produção de mel em torno de 50% a 60%, onde nem sempre ocorre a mortalidade das abelhas, mas sim o abandono das colmeias.
Segundo ele, é possível evitar a redução na produção e a mortalidade das abelhas, com a melhora no manejo dos pastos apícolas. "Com o plantio por parte dos apicultores de espécies como o manjericão, mutre, amor agarradinho, assa-peixe branco, girassol mexicano, nabo forrageiro, girassol e outras plantas adaptadas a cada região. Bem como o manejo adequado das colmeias, visando a diminuição de algumas doenças, um bom controle sanitário e a criação de um cinturão de criação, que envolve a escolha correta do local na propriedade para a implantação das colmeias e do pasto apícola, podem de alguma maneira diminuir este distúrbio", diz.
Diante deste cenário, o que o professor aponta como alternativas para evitar a mortalidade, o uso de abelhas meliponas, sem ferrão, que muito embora produzam bem menos mel, são menos suscetíveis a este mal.