21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Expressão Plural

Sabedoria de escala e IA (final)

teste
Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

​A grande questão do nosso tempo, talvez, não seja propriamente tecnológica, mas de escala. Na primeira parte deste texto, estará lembrado o caro leitor/a, tentei sugerir isso a partir de um encontro inusitado: Gandalf, de “O Senhor dos Anéis”, citado pelo Papa em sua encíclica sobre Inteligência Artificial, e um poema taoísta de Deng Ming-Dao sobre montanhas, tempo e pequenez humana. Em ambos, aparecia a mesma intuição: a de que não nos caberia controlar todas as marés do mundo, mas, antes, aprender a habitar corretamente (Anna Tsing) o pequeno fragmento de realidade que atravessamos. Essencialmente, era isso o que dizia o trecho de Tolkien trazido pelo Papa.

​Eu havia lembrado que existe uma antiga “sabedoria de escala” atravessando tradições muito diferentes — Tolkien, Taoísmo, contemplação cristã, I Ching, narrativas indígenas. Uma sabedoria que rejeita a fantasia moderna do humano como centro absoluto e controlador do mundo. A questão da Inteligência Artificial apareceria, então, menos como um problema técnico isolado, pontual, um problema como qualquer outro desde, sei lá, a primeira ponta de flecha, e mais como um espelho ampliado de um velho sonho civilizacional: dominar todas as marés. Voltemos, então, ao ponto essencial: Gandalf não promete controle do mundo. O Tao também não. Emerge, então, uma pergunta muito mais antiga: o que acontece quando perdemos o senso de medida. Passo, assim e agora, a apontamentos outros que não couberam neste espaço na coluna da semana passada.

​ Quíron, o centauro ferido, afirmaria, como hipótese, que este é um dos grandes arquétipos civilizacionais: o guardião do pequeno fogo em meio à noite cósmica. Manter a chama acesa “nos dias que nos coube viver” (palavras de Gandalf) já é “tipo” tudo. Não Alexandre, não Napoleão, não a conquista do universo. Mas uma pedagogia da limitação. Bibliotecários, professores, pequenos livreiros. William de Baskerville, esse outro Gandalf (e meio Holmes), de Umberto Eco, provavelmente reconheceria aí um velho problema medieval: a tentação de transformar conhecimento em soberania absoluta. Ele termina reconhecendo limites radicais do saber – como se “O Nome da Rosa” inteiro fosse uma crítica à obsessão totalizante pelo sentido, e a biblioteca-labirinto, no fim incendiada, uma metáfora da internet/IA.

​Há algo muito “Red Road”, também, nisso tudo — aquela ética presente em tantas narrativas indígenas: ninguém “possui” o mundo; a tarefa humana é caminhar em relação correta com ele. Nessa angulação possível, estaríamos então falando de um anti-imperialismo espiritual? Afinal, a frase da encíclica sobre “fidelidade pequenas e tenazes” poderia estar em muitos comentários ao I Ching, o Livro das Mutações, ou ao Tao Te King. O sábio taoísta trabalha silenciosamente na textura do cotidiano (Blofeld); não busca grandiosidade (Mestre Po); não se coloca acima do fluxo, não força o rio.

​Mas eu queria tratar – e esse era o ponto de partida – da questão tecnológica tal como enquadrada pelo Papa. A IA, os riscos de uma “desumanização tecnológica”, e a sugestão de que “máquinas poderosas” e seus sujeitos poderiam inflacionar ainda mais a ideia de que tudo deve ser controlado, otimizado, acelerado, postado, exibido, dominado. O caro leitor/a entende? O mesmo ego criticado no texto de Deng Ming-Dao reaparece agora em escala técnica. Os pontos trazidos como encaminhamento para lidarmos o fenômeno da (das?) IA seriam: desarmar as palavras; fortalecer o diálogo; assumir o olhar das vítimas; cultivar o realismo. Como que práticas discretas de desaceleração do ego civilizacional.

​Uma sabedoria de escala seria uma sabedoria “do pequeno”, do pequeno universo - ajustada ao real. Não podemos, nunca pudemos, botar o gênio da tecnologia de volta na garrafa. Mas sempre é possível ajustar a nossa postura e a nossa respiração – e segurar a nossa onda, para enfrentarmos os monstros odisseicos que vierem. Afinal, como certamente argumentaria Dumbledore (essa outra encarnação contemporânea de Merlin), ou o próprio Gandalf — ou talvez um velho sábio taoísta sentado diante de uma montanha -, não controlar todas as marés não impede ninguém de manter acesa uma vela sutil, uma pequena luz. O Ged de Ursula Le Guin poderia estar na encíclica também: poder sem medida rompe o tecido do mundo.

Publicidade

Blog dos Colunistas

;