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Opinião

O Menino de Bodoque e a Primeira Namorada

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Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Divulgação

 

Não há mais pés de fruta no fundo dos quintais. Aliás, não há mais quintais. O que existe agora são sacadas de fundos em apartamentos minúsculos, com cheiro de desinfetante e um mofo que insiste em ficar.

Fruta, se alguém quiser, só na gôndola do supermercado. Asséptica, lavada, com o mesmo cheiro de desinfetante da sacada. Quitanda virou peça de museu. Armazém de secos e molhados, com aqueles mosquitinhos teimando em volta da banana, também acabou.

Não é saudosismo. Seria ridículo, aos meus anos, viver de passado. Apenas constato. Aceito o presente porque não tenho galhada nem cipó para trepar. Levo meu neto ao parquinho do prédio ou à pracinha ao lado, que não é lá essas coisas e tem um cheiro persistente de cocô de cachorro.

Mas ainda se imagina. E se compete. E se inventam inimigos. Somos todos uns Quixotes de bermuda, sem moinhos decentes para enfrentar. Ficamos com o Rocinante, com o Sancho Pança e, principalmente, com as Dulcineias.

Graças a Deus, as Dulcineias continuam existindo. Primeiro aquecem a mamadeira e contam história de príncipe. Depois seguram nossa mão, dão beijo na boca e a gente descobre que vício não é só pecado. É pior.

No meu tempo, menino travesso quebrava vidraça com bodoque. A munição era bolinha de gude, às vezes mortal. Tinha também uma menina. Linda, ranheta, de pé no chão. Corria mais que o vento e tinha uns olhinhos que não paravam quietos.

O cheiro era de suor limpo e de fruta no pé. Desinfetante não existia. Vacina vinha no ar, não doía. Febre a gente tirava com banho de abacateiro. Brotoeja passava sozinha. Seringa era um terror distante, quase lenda.

As árvores eram enormes e íntimas. Não havia concreto. A casa do meu avô ficava do outro lado da rua. Era de tijolo e madeira bem lustrada. Cheirava a fumo de rolo e cera de abelha, uma mistura que até hoje não decifrei direito.

Meu avô era dentista, músico, fumante e criava pintassilgo. Não necessariamente nessa ordem. Tinha a calma de quem já entendeu o segredo e não tem pressa de contar. Lidava com a eternidade como se lida com um dente difícil: sem afobação.

Um dia morreu. Assim, como passarinho. Sem um pio, sem escândalo. A menina peralta, de perna fina e pé descalço, também sumiu no tempo. Ou fui eu que sumi. Afobado, sem graça, sem remédio.

Não entendo de pássaros. Disso quem cuida é meu neto Domênico, um entendido. Eu só entendo de concreto. E mesmo assim passo a vida perseguindo o abstrato. E a menina travessa.

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