Alguns acontecimentos me fazem ter esperança que estamos evoluindo como humanidade e caminhando para frente, como por exemplo, ver pela primeira vez na história, uma mulher negra conquistar o título de Rainha da Frinape e de uma mulher trans ter conquistado o título de 2ª Prenda da 2ª Região Tradicionalista (2ª RT) do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). Mas basta olhar um pouco mais de perto para o desânimo bater à minha porta e voltarmos umas dez casas com a Rainha sendo atacada nas redes por racismo e a Prenda, por machismo, isso quando não atacam outras pessoas sem motivo. Enfim, não é exatamente esse o assunto de hoje, mas é por esse caminho.
Vivemos diariamente a escalada dos feminicídios, assistimos a comportamentos machistas sendo reproduzidos com assustadora naturalidade dia após dia, porém o que mais me espanta é quando esse tipo de pensamento ganha voz justamente de quem sofre seus efeitos, as mulheres. Há alguns dias, em meio a Copa do Mundo, uma jornalista francesa afirmou que o jogador belga Jérémy Doku deveria priorizar a carreira em vez de acompanhar o nascimento do filho, porque, segundo ela, o pai é inútil na hora do parto que é um momento nojento.
Será que ela ou alguém ousaria sugerir que uma mãe fizesse uma opção profissional em detrimento de um filho ou da família alegando que ela estaria se prejudicando na carreira? Acredito que não. A jornalista acabou se desculpando depois do desserviço prestado, mas pedir desculpas não apaga o que foi dito, ainda mais sobre o alcance que teve. Outra coisa que vem sido bastante normalizada, falar absurdos e pedir desculpas na sequência.
Enquanto isso, Doku fez exatamente o que se espera de um pai, deixou claro que estaria ao lado da esposa no nascimento do filho, retornaria ao trabalho assim que fosse possível e assim o fez. Porque não, cara jornalista, pai não é figurante. O clube fez o que também deveria ser normal, deu suporte e compreendeu que existem momentos que estão acima de qualquer momento profissional. É triste como ainda exista quem trate o nascimento de um filho como um evento exclusivamente feminino, enquanto o homem seria apenas um espectador dispensável e não é. Pai é apoio, segurança, acolhimento, presença, amor. Sua participação é indispensável para que a mulher passe por esse momento que é um dos mais intensos da vida com tranquilidade. O parto não é nojento, é a vida acontecendo. É o nascimento de uma criança, de um pai e de uma mãe.
Nunca passou pela minha cabeça não estar presente no parto da minha esposa e olha que no começo nem tínhamos ideia do quanto esse dia seria difícil. E eu vivi esse momento, eu estava lá. Ao mesmo tempo que tivemos a maior alegria, de receber um dos nossos pequenos nos braços, precisamos enfrentar a maior dor, de nos despedir do nosso pequeno anjo.
Quando nosso filho apresentou dificuldades para respirar e estava prestes a ser levado para a UTI, foi a minha voz, meu toque, meu amor e a conexão que já existia entre nós, que ele conseguiu se estabilizar. E foi no meu colo que ele voltou aos braços da mãe dele ao invés de ir para uma incubadora fria de UTI.
Tenho absoluta convicção de que não fui um figurante. Escolhi estar e escolheria sempre estar. Não importa o que acontecesse, as propostas que viessem junto. Tenho certeza que nenhum PAI, nenhum PARCEIRO é figurante nesse momento.
A discussão, portanto, vai muito além da infeliz declaração desta jornalista. Ela escancara uma cultura que ainda trata o nascimento de um filho como algo estritamente de responsabilidade da mulher, das empresas que se isentam de apoiar seus funcionários a estarem junto de suas esposas e filhos neste momento. Só é figurante quem quer e quem está longe da sala de perto seja pelo motivo que for.
Parabéns a Jérémy Doku, aos pais que escolhem estar presentes e às empresas que entendem essa prioridade.