A gente passa a vida inteira com pressa. Uma correria danada.
Pressa de vender, de comprar, de responder, de aparecer – ou sumir. E aí você entende que esse cansaço não é sinal de fraqueza.
E no meio dessa azáfama, age como se já soubesse tudo.
Ou pior: como se não precisasse saber de nada.
Qual é o objetivo? O que é bom? O que presta? O que resta?
Pergunta perigosa. A maioria foge. Deixa pra depois.
Só para pra pensar quando a morte bate na porta do vizinho.
Ou quando perde alguém de quem se gosta.
E aí, paradoxalmente, o morto fica mais vivo.
Rondando a gente, com calma. A dor do perdão não é apenas a tristeza.
É falando dele que a gente o traz de volta à mesa. Mesa recém posta, mal servida, ainda quente.
A ausência dá corpo novo à memória. Puro incômodo
Eu ando pensando nisso.
Porque sabedoria não é mercadoria.
Você não chega no verdureiro e pede um quilo e meio e confere a abalança. O peso de um amor continua vivo, mesmo depois da etiquetagem.
Não baixa da internet. Não faz num curso home office de fim de semana. É seu coração tentando se adaptar aos novos tempos.
Livro ajuda. Gente mais velha ajuda.
Mas no fim o esforço é seu. Ninguém mastiga por você o pão que você mesmo - ou o diabo amassou. Ninguém paga a conta por você.
Então você precisa parar, respirar fundo, e continuar.
Sabedoria não se ensina. No máximo, aprende-se.
Só aprende quem tem coragem de olhar para trás, para própria vida e dizer:
"Peraí, onde estão os sete erros capitais e os outros mil que cometi na prática? Será que nada foi certo?"
Sim, examinar dói.
Mas não examinar dói mais ainda.
Sócrates já dizia isso há 2.500 anos. E ninguém quis ouvir direito:
"Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida."
Eu acrescentaria: nem contada.
Não se culpe.
Porque pra ser lembrada, uma vida não pode ser azeda.
Rancor envelhece mal. Ódio não rende boas histórias.
Vingança é prato que ninguém mais quer comer.
Quem vive assim morre duas vezes. Primeiro o corpo. Depois a lembrança.
Os filhos, coitados, ficam com essa herança.
Com a imagem de um pai ou de uma mãe que escolheu a amargura.
E remorso corrói a alma qual ferrugem. Não tem como fazer alguém chorar, sem chorara depois. Não tem como dar um sorriso, sem recebe-lo de volta. Tudo funciona de forma simples nos pagamentos e também nas cobranças de dívidas atrasadas
Os maus dias existem. Existirão sempre.
Mas que sejam ofuscados pelos bons.
É isso que a gente conta depois. É isso que fica. Pois quem ama profundamente precisa recuperar as forças para continuar a infinita viagem.
De resto...
Triste foi.
Triste será.
*Médico
Presidente da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado do RS
Membro da Academia Erechinense de Letras