Domingo, 4 de outubro, tem eleição. E, por algumas horas, o brasileiro deixa de ser apenas espectador da política, comentarista de grupo de WhatsApp, especialista em eleição alheia e fiscal da vida dos outros. Vai à urna.
E aí aparece uma coisa curiosa. O voto parece simples porque já está na nossa mão. Mas não foi simples chegar até aqui.
O brasileiro conquistou o direito de votar depois de uma longa história de avanços, restrições, exclusões e mudanças. O Tribunal Superior Eleitoral lembra que o exercício dos direitos políticos no país nem sempre foi amplo. O voto foi, em diferentes períodos, ampliado e restringido, usado como instrumento de participação, mas também de controle e coerção. A Justiça Eleitoral só foi criada em 1932, ajudando a estabelecer as bases do processo eleitoral moderno.
E há uma lembrança que não deve ser esquecida. As mulheres brasileiras conquistaram o direito de votar e ser votadas em 1932, com a primeira participação nacional ocorrendo na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte de 1933. Foi uma conquista construída depois de décadas de discussão e mobilização.
O voto secreto é uma das grandes armas do eleitor. E essa é uma das belezas da democracia. Naquele momento, sozinho na urna, não existe palanque, carreata, santinho, vídeo de rede social, promessa de campanha, discurso inflamado ou aquele conhecido “vota em mim que depois a gente conversa”.
Em 4 de outubro, mais de 158,7 milhões de eleitores estão aptos a votar nas eleições gerais de 2026. Serão escolhidos presidente e vice-presidente, governadores e vice-governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. A votação ocorre das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. É gente demais para uma democracia ser tratada como torcida organizada.
Talvez esteja aí um dos grandes problemas dos nossos tempos. Confundimos política com futebol. No futebol, você escolhe um lado, xinga o juiz, sofre com o resultado e, na segunda-feira, já começa a pensar no próximo campeonato. Na política, não. A conta chega para todos.
O preço da gasolina não pergunta em quem você votou. O atendimento no posto de saúde não confere partido. A escola pública não exige filiação partidária na porta. O imposto não escolhe ideologia. A estrada esburacada também não.
Domingo também será um dia para lembrar que democracia não é concordar com todo mundo. Democracia pressupõe divergência. Gente pensando diferente. Discussão. Contradição. Debate. Alternância. Fiscalização. Cidadão cobrando. Eleito prestando contas.
Neste domingo, talvez valha uma pequena pausa antes de apertar qualquer número. Não para ouvir o último áudio que chegou no WhatsApp. Não para compartilhar o vídeo mais indignado da internet. Não para seguir o grito mais alto. E sim, para lembrar que cada número digitado na urna representa uma escolha individual dentro de uma decisão coletiva.
A democracia tem defeitos. A política tem defeitos. Os candidatos têm propostas, histórias, posições e trajetórias diferentes. O eleitor também tem suas convicções. Ainda bem. Porque democracia perfeita provavelmente só existe em discurso de campanha. Na vida real, ela é feita de gente diferente tentando conviver sob as mesmas regras.