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Expressão Plural

A pedra de Sísifo: punição ou exercício?

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

 O escritor e filósofo sino-americano Deng Ming-Dao escreveu que, quando leu pela primeira vez sobre Sísifo, assimilou, como todo mundo, a ideia que vinha junto na narrativa do mito: o personagem estava sendo punido. Tinha-lhe sido dada uma tarefa que não podia ser terminada e que ficava sempre por ser recomeçada. Em razão de, por ser sumamente inteligente, ter em duas ocasiões “dibrado” a morte, Zeus ordenou que ele empurrasse uma enorme e pesada pedra montanha acima, pedra que antes de ser acomodada no topo (ou que não podia ser acomodada no topo), rolava para baixo. E isso todos os dias, de novo e de novo (Ming-Dao observa de passagem: não significa, então, que Sísifo tornou-se imortal? De todo modo, a imortalidade pode ser lida como uma desgraça, como temos em Simone de Beauvoir).

 O filósofo prossegue: “Hoje, no entanto, eu penso: fazer as coisas de novo e de novo é, na verdade, o que todos/as esperamos. É nossa esperança.” E desenvolve a ideia: um dia de trabalho é duro, difícil, desafiador, mas, se tivermos sorte, o teremos de novo amanhã. Preparar uma refeição dá trabalho, mas, se tivermos sorte, amanhã a prepararemos de novo – teremos condições de fazê-lo, com tudo o que isso implica. Cuidar da família e dos amigos/as pode ser cansativo, mas, se tivermos sorte, amanhã ainda teremos amigos/as e família para retomar os cuidados. Lidar com as incertezas do mundo – mudanças climáticas, guerra, pandemia – pode ser bem estressante, mas, se tivermos sorte, amanhã teremos forças renovadas (e mundo) para compreendê-las e enfrentá-las. Conceber ideias para um texto nem sempre é algo fácil, mas, se tivermos sorte, amanhã as teremos novamente.

Deng Ming-Dao entende que o mundo em que vivemos, nossa relação com ele, traz a ilusão de que podemos “finalizar a tarefa”, “dar conta do trabalho”. E isso se estenderia para outras esferas: pensamos que podemos “lutar a guerra que dará fim a todas as guerras”, ou “superar o racismo de uma vez por todas”, ou “dar por concluída a criação de nossas crianças”, ou “harmonizar nossas diferenças de hoje em diante”, ou, ainda, “erradicar todo o mal do mundo”. Esse “ponto final”, que afinal não vem – ao menos para os grandes temas da vida -, desviaria nossa atenção do fato de que é preciso mantermo-nos trabalhando e mantermo-nos vigilantes; não poderíamos jamais desistir porque cada uma daquelas questões é, sem dúvida, “melhorável” – mas não de uma vez por todas. Forças de retrocesso podem incidir sobre cada um de nossos trabalhos.

Quando Albert Camus leu o mito em seu texto célebre, usou-o como um exemplo do absurdo da vida – absurdo que deveria nos levar não ao suicídio, mas à revolta. Com Deng Ming-Dao, e em outra clave (entre o Lógos e o Tao), temos que Sísifo, no fim das contas, pode não ter sido o desafortunado que sempre vimos nele. E que, inteligente como era, pode ter-se dado conta, também, da complexidade de sua circunstância.

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