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Saúde

Diagnóstico precoce do ceratocone evita transplante de córnea

Doença pode ter a progressão interrompida quando identificada nos estágios iniciais

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Dr. Lucas explica que a ideia da campanha Junho Violeta é adiar ao máximo o transplante de córnea, t
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Amanda Gatti

No mês de junho aconteceu a campanha Junho Violeta, dedicada à conscientização sobre o ceratocone, uma doença ocular que afeta principalmente crianças, adolescentes e adultos jovens. Silenciosa e progressiva, a condição pode comprometer seriamente a visão quando não identificada precocemente. O diagnóstico em estágios iniciais permite interromper a evolução da doença e reduz significativamente a necessidade de transplante de córnea.

O especialista em transplante de córnea e superfície ocular da Clínica CODI – Clínica de Oftalmologia e Dermatologia Integrada, o médico oftalmologista, Dr. Lucas Baldissera Tochetto explica que muitas pessoas convivem com a doença sem perceber os primeiros sinais. “Simplesmente, às vezes, estão com uma baixa de visão, vão fazendo óculos e nem sabem que têm essa doença. É uma doença progressiva, ou seja, ela vai evoluindo e a pessoa realmente chega em estágios que ela não enxerga nada e fica difícil, às vezes, de tratar. É por isso que a gente divulga esse tipo de campanha, para que as pessoas busquem o médico oftalmologista antes que sintam algo pior, porque às vezes já está muito tarde".

O que é o ceratocone

O ceratocone é uma alteração que ocorre na córnea, estrutura transparente localizada na parte frontal do olho, responsável por proteger a região e permitir a passagem da luz. Em condições normais, a córnea possui formato arredondado e regular, mas, quando há uma fragilidade em sua estrutura, ela começa a sofrer uma deformação, adquirindo um formato semelhante ao de um cone e provocando distorções na visão.

"Eu faço uma analogia com uma bolha de um pneu de carro. Quando existe uma região mais frágil, ela vai formando uma protusão e na córnea acontece algo semelhante. Cada vez que a pessoa aperta ou coça os olhos, essa deformação pode aumentar e como não há dor, muitas vezes o paciente só percebe quando a visão já está bastante comprometida”, explica o médico.

Crianças e adolescentes são o principal grupo de risco

O ceratocone costuma surgir ainda na infância ou adolescência, especialmente entre os 9 e 10 anos de idade, período em que a córnea apresenta maior flexibilidade. A predisposição genética está entre os principais fatores envolvidos, mas ela normalmente atua em conjunto com fatores ambientais, como alergias oculares e o hábito frequente de coçar os olhos. Segundo o médico, se a roda do pneu não é de boa qualidade, ela tende a ser mais frágil e o mesmo acontece com a córnea. Se ela não é tão firme, existe uma propensão maior para desenvolver a doença.

"O ideal é levar a criança na consulta, principalmente se tem histórico e apresenta hábito de coçar os olhos e alergias por volta dos 8 anos para começar a olhar a córnea. Normalmente não tem nada, mas o ceratocone está em 5% da população, ou seja, cinco a cada 100 pessoas têm e não sentem nada", salienta Dr. Lucas.

Mesmo quando há histórico familiar, a doença não é obrigatoriamente hereditária. O médico explica que o ceratocone é multifatorial. Uma pessoa pode herdar a predisposição genética e nunca desenvolver a doença caso não apresente fatores desencadeantes, assim como alguém sem histórico familiar também pode manifestá-la.

Progressão costuma diminuir com a idade

Com o passar dos anos, a córnea naturalmente se torna mais rígida devido ao aumento das ligações entre suas fibras, processo que tem relação com a exposição aos raios ultravioleta. Apesar desse efeito específico na córnea, o especialista ressalta que isso não significa que seja recomendada a exposição ao sol, já que a radiação ultravioleta continua sendo prejudicial para diversas estruturas do organismo.

Segundo o especialista, a progressão costuma diminuir após os 25 ou 30 anos, quando a córnea se torna naturalmente mais rígida. "Normalmente, não evolui mais. Se o paciente não evoluiu tanto no começo, quanto mais velho, mais difícil de evoluir. Não que não possa, não que não exista casos de evolução tardia, existe, mas normalmente ela dá uma freada”, aponta o oftalmologista.

Exames permitem identificar a doença antes dos sintomas

Como o ceratocone não provoca dor, as consultas oftalmológicas periódicas são fundamentais. Mudanças frequentes no grau dos óculos, dificuldade para enxergar, alergias oculares e o hábito de coçar os olhos merecem investigação.

Pacientes com ceratocone também costumam apresentar fotofobia, pois a deformação da córnea provoca dispersão da luz, tornando ambientes claros bastante desconfortáveis.

Dr. Lucas coloca que "quando o paciente chega, já na primeira avaliação a gente começa a ter uma noção de que alguma coisa está errada e solicita exames complementares".

Entre os exames utilizados estão a topografia e a tomografia, que avaliam a região da córnea. A tomografia é um pouco mais específica, porém com a topografia, é possível identificar alterações na curvatura e acompanhar a evolução da doença ao longo do tempo. "Ela vai ver essa distorção no olho e aí a gente consegue com ela identificar a doença e também ver progressão, porque ela faz uma foto no momento que tu faz e depois, com o tempo, a gente vai repetindo esse exame comparando com os antigos", explica Dr. Lucas.

Outras condições, conhecidas como erros refrativos, entre elas a miopia e o astigmatismo, costumam surgir em consequência da deformação da córnea. "Não é uma regra, mas normalmente é isso. Esses tipos de erro refrativo são uma consequência e, óbvio, causam baixa de visão”, aponta.

Tratamento evita a progressão da doença

O tratamento atua em duas frentes, que é impedir o avanço do ceratocone e melhorar a qualidade da visão. Nessa primeira frente, "é possível fazer um tratamento chamado cross-linking, que é um tratamento que a gente usa riboflavina, que é uma vitamina B12. Aplica no olho uma luz ultravioleta controlada por um período para aumentar as ligações da córnea e frear a doença".

Já para melhorar a visão, dependendo do estágio da doença, em casos iniciais, os óculos podem ser suficientes. Quando a deformação da córnea é maior, o uso de lentes de contato passa a ser uma alternativa. Em situações mais avançadas, podem ser indicados o implante de anel intracorneano e, apenas quando as demais opções não apresentam resultado, o transplante de córnea.

É importante lembrar que mesmo pacientes com deformações importantes podem não necessitar de transplante quando recebem acompanhamento adequado.

"Hoje em dia, dificilmente a gente chega em transplante. Se o paciente é diagnosticado logo no início, a chance de evoluir para essa cirurgia é muito rara”, coloca o oftalmologista.

Lentes evoluíram e reduziram transplantes

Embora as lentes rígidas sejam as mais conhecidas para o tratamento do ceratocone, elas não são obrigatórias para todos os pacientes. Em casos iniciais, onde as alterações são menos acentuadas, as lentes gelatinosas também podem proporcionar boa visão. As rígidas proporcionam melhor qualidade visual porque criam uma superfície óptica mais regular sobre a córnea. "Nem sempre é uma regra ter que fazer lente rígida, mas normalmente é melhor”, explica.

Atualmente, há ainda uma outra opção que são as lentes esclerais, maiores e mais confortáveis, indicadas principalmente para casos avançados.

"Hoje o mundo das lentes evoluiu muito e é por isso que despencou o número de transplantes, além de ter o tratamento de cross-linking que segura a doença. Essa parte de reabilitação de visão com lente de contato é uma coisa fantástica”, aponta.

Transplante é a última alternativa

Quando todas as alternativas deixam de oferecer resultados satisfatórios, o transplante de córnea passa a ser indicado. A técnica também evoluiu nos últimos anos e, atualmente, em muitos casos é possível substituir apenas parte da córnea, preservando estruturas saudáveis do olho por meio dos chamados transplantes lamelares.

"O transplante é fantástico, ele reabilita a visão dos pacientes com cones muito altos, só que a gente tem que entender que o transplante é uma mão humana mexendo num olho que Deus criou."

Segundo o médico, a durabilidade varia conforme o tipo de transplante realizado, podendo chegar entre 10 e 20 anos nos transplantes penetrantes quando não há complicações. "O transplante não perde a validade, mas sim, ele tem um prazo onde ele consegue ficar viável”. O acompanhamento de um transplante deve seguir por toda a vida e é preciso ter ciência que a cada novo transplante aumenta os riscos de rejeição e de outras intercorrências, por isso o objetivo é sempre adiar esse procedimento ao máximo.

"O ideal é adiar ao máximo essa possibilidade. Essa é a ideia da campanha, é não chegar nesse ponto de ter que precisar de um transplante, é tu pegar antes e conseguir com coisas simples resolver uma doença que pode evoluir para isso", finaliza Dr. Lucas.

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