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Opinião

Poupança dos afetos

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Lucia Pagliosa
Por Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa - Professora da URI Erechim – Doutora em Linguística Aplicada - Membro da Academia Erechinense de Letras – AEL
Foto Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa

— Se a senhora continuar com essas teimosias, vou acabar colocando a senhora num asilo!

A cuidadora lançou a frase num misto de impaciência e cansaço. A idosa, já ultrapassando os noventa anos, ergueu os olhos e respondeu sem vacilar:

— Eu tenho dinheiro. Pago para você me cuidar. E pago muito bem. Então, me aguente.

Confesso que sorri. Havia naquela resposta uma altivez admirável. Aquela firmeza de quem atravessou quase um século sem abrir mão do comando sobre a própria vida. A senhora tinha razão. Pagava por um serviço e exigia que fosse prestado. Mas, depois do sorriso, senti-me um tanto sem graça.       

Aquela mulher não defendia apenas seu dinheiro. Defendia algo muito maior: o direito de continuar sendo sujeito da própria história. Talvez uma das maiores dificuldades da velhice seja esta. O corpo envelhece, os movimentos se tornam mais lentos, algumas dependências surgem. Mas a pessoa continua carregando desejos, opiniões, lembranças e projetos. Muitas vezes, porém, passamos a enxergar apenas a idade, como se os anos apagassem sua história e sua individualidade.

Vivemos uma contradição. Se, por um lado, nunca a humanidade viveu tanto, por outro, nunca demonstrou tamanho desconforto diante da velhice. Queremos chegar aos noventa, aos cem anos, mas não queremos parecer velhos. Celebramos o aumento da expectativa de vida enquanto transformamos rugas em inimigas, cabelos brancos em desalento e lentidão em fracasso.

Em algumas sociedades orientais, a velhice conserva um significado associado à sabedoria e ao respeito. No Japão, há até um dia nacional dedicado aos idosos. Em muitas culturas tradicionais, os anciãos são guardiões da memória coletiva. Quando um velho morre, não desaparece apenas uma pessoa: desaparece uma biblioteca inteira.

Entre nós, porém, a juventude tornou-se um ideal quase absoluto. O mercado vende juventude. As redes sociais recompensam juventude. Sem perceber, construímos uma sociedade que deseja viver mais, mas não sabe conviver com quem envelhece.

O Brasil já sente os efeitos dessa transformação. Em estados como o Rio Grande do Sul, há mais idosos do que crianças. O envelhecimento já não é tema do futuro. Está sentado à nossa mesa. E nenhuma estatística responde à pergunta essencial: quem estará ao nosso lado quando chegarmos lá?

Há alguns dias, li uma observação do médico Alfredo Cataldo Neto, coordenador do Grupo de Pesquisa em Envelhecimento e Saúde Mental da PUCRS, que ecoou em minha memória: "Além de poupar dinheiro, é importante fazer uma poupança de afetos."  A frase parece simples. Algumas verdades permanecem justamente porque cabem em poucas palavras.

Passamos décadas acumulando patrimônio. Trabalhamos para comprar uma casa, garantir a aposentadoria e proteger o futuro. Tudo isso importa. O dinheiro compra medicamentos, exames, adaptações na residência e cuidados especializados. Mas existe uma dimensão da vida que ele não alcança.

Em Rei Lear, Shakespeare mostra um velho monarca que descobre, tarde demais, que o poder acumulado ao longo da vida não lhe garante amor, lealdade nem companhia. Lear possuía um reino. Ainda assim, morreu experimentando uma profunda pobreza afetiva.

Talvez essa seja a grande lição da velhice. Chega um momento em que o patrimônio continua pagando as contas, mas já não consegue preencher a solidão. Nenhuma aplicação financeira compra uma visita espontânea. Nenhum saldo bancário garante alguém que permaneça quando já não existe obrigação de permanecer.

Com o passar dos anos, os extratos podem continuar crescendo enquanto a mesa da cozinha permanece do mesmo tamanho, mas reúne cada vez menos vozes. Amigos partem. Irmãos partem. Colegas partem. Os números permanecem organizados nas contas. As ausências, não.

Talvez por isso Alfredo Cataldo Neto tenha razão ao recomendar uma "poupança de afetos". Porque chega uma idade em que a riqueza deixa de ser medida pelo que possuímos e passa a ser medida por quem permanece.

No fim da vida, talvez a conta mais importante não seja a do banco. Talvez seja a cadeira vazia ao nosso lado — e a sorte imensa de ainda haver alguém disposto a ocupá-la.

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