Após cinco anos de trabalho, uma pesquisa desenvolvida na URI Erechim chega à etapa final com o objetivo de ampliar a compreensão sobre os efeitos da oxigenoterapia hiperbárica na cicatrização de enxertos e retalhos cutâneos. O estudo, intitulado “Avaliação dos efeitos da oxigenoterapia hiperbárica na cicatrização de enxertos cutâneos em ratos Wistar: análises macroscópica, histopatológica e de biomarcadores séricos de estresse oxidativo”, reúne análises do aspecto externo da cicatrização, avaliações microscópicas dos tecidos e investigação de marcadores sanguíneos relacionados ao estresse oxidativo.
Pesquisa busca respostas para desafios da cirurgia reconstrutiva
Idealizada e coordenada pelo cirurgião oncológico e professor titular do curso de Medicina da URI, Dr. Fabio Paiz, a pesquisa foi construída em diferentes etapas ao longo dos últimos cinco anos. O trabalho partiu de uma questão presente na cirurgia reconstrutiva: seria possível melhorar a cicatrização e a viabilidade de tecidos submetidos a procedimentos com maior risco de baixa oxigenação?
Diferentes técnicas foram avaliadas ao longo do projeto
Inicialmente, foram comparadas diferentes técnicas de fechamento da pele, incluindo suturas absorvíveis e não absorvíveis e cola cirúrgica. Na sequência, o grupo passou a investigar procedimentos de reconstrução com retalhos cutâneos e enxertos, avaliando a evolução da cicatrização e a influência da oxigenoterapia hiperbárica. Também foram estudados diferentes momentos para o início do tratamento e o número de sessões realizadas.
Resultados preliminares apontam possível benefício
Os resultados preliminares indicam um possível benefício da oxigenoterapia principalmente em tecidos com maior risco de isquemia. Segundo Paiz, os dados obtidos até o momento apontam para melhora da cicatrização, com redução de áreas de necrose e alterações favoráveis na formação e organização do colágeno. A resposta parece ser mais positiva quando a terapia é iniciada precocemente, embora a conclusão definitiva dependa da análise de todas as etapas do estudo.
Análises combinam aspectos macroscópicos e microscópicos
A pesquisa procura reunir informações que normalmente são avaliadas de maneira separada em trabalhos científicos. Além da observação macroscópica, que permite verificar a integração do enxerto ou do retalho e medir áreas de tecido viável e de necrose, as amostras são submetidas à análise histopatológica. Nesse processo, são observados fatores como inflamação, formação de novos vasos sanguíneos, presença de fibroblastos, deposição e organização do colágeno, reepitelização e eventual reação a corpo estranho, conforme o protocolo de cada etapa.
Biomarcadores séricos acrescentam uma nova dimensão ao estudo
A fase final acrescenta uma terceira dimensão à investigação: a análise de amostras de sangue das cobaias. Serão avaliados biomarcadores relacionados ao estresse oxidativo, às defesas antioxidantes e à inflamação. A intenção é verificar não apenas o que ocorre na área submetida à reconstrução, mas também como o organismo responde metabolicamente ao processo de cicatrização. “Essa é a parte inédita e muito importante do nosso trabalho”, explica Paiz.
Três frentes de análise formam o diferencial da pesquisa
A combinação das três frentes de análise, macroscópica, histológica e sérica, é um dos principais diferenciais do estudo. A proposta é confrontar o aspecto externo da cicatrização com as alterações observadas no tecido e com a resposta sistêmica identificada nos exames sanguíneos. Quando os diferentes indicadores apresentam resultados compatíveis, os pesquisadores passam a ter uma base mais consistente para interpretar os efeitos do tratamento.
Câmara hiperbárica exclusiva para cobaias viabiliza os experimentos
A realização do estudo também foi viabilizada pela estrutura disponível na URI Erechim. A universidade conta com uma câmara hiperbárica exclusiva para cobaias, equipamento considerado raro no país, o que permite aos pesquisadores desenvolver protocolos controlados e reproduzíveis sem a necessidade de deslocamento para grandes centros de pesquisa.
Estrutura permite continuidade e padronização dos experimentos
A presença da estrutura na universidade possibilitou a continuidade da investigação ao longo dos anos, mantendo os mesmos parâmetros experimentais e permitindo que uma etapa servisse de base para a seguinte. Para Paiz, a possibilidade de realizar estudos experimentais na própria instituição também cria condições para que futuros pesquisadores possam retomar os dados, repetir protocolos ou ampliar a investigação.
Ratos Wistar foram utilizados como modelo experimental
Os experimentos foram realizados com ratos Wistar machos, com 90 dias de idade e dentro de uma mesma faixa de peso, uma padronização adotada para reduzir a influência de diferenças entre os animais. Os grupos foram organizados de modo a permitir comparações entre a evolução natural da cicatrização e os efeitos associados à oxigenoterapia hiperbárica, incluindo variações no momento de início e no número de sessões.
Pesquisa segue protocolos éticos para uso de animais
O estudo foi avaliado e liberado, em 2026, pela Comissão de Ética no Uso de Animais da URI (CEUA-URI), sob o protocolo nº 181, estando adequado à Lei nº 11.794, de 8 de outubro de 2008. O desenho experimental estabelece o número de animais necessário, enquanto a equipe responsável recebeu capacitação para os procedimentos. Anestesia, analgesia e monitoramento foram empregados de acordo com os protocolos previstos.
Modelo animal permite investigar mecanismos da cicatrização
A etapa experimental não busca reproduzir integralmente as condições encontradas em pacientes humanos. O modelo animal permite controlar variáveis e estudar mecanismos da cicatrização, mas não contempla toda a complexidade clínica de uma pessoa, que pode apresentar diferentes idades, doenças, medicamentos e condições vasculares. Por isso, os pesquisadores consideram necessário concluir todas as análises antes de estabelecer conclusões definitivas sobre os resultados.
Oxigenoterapia é investigada como tratamento complementar
Na medicina, a expectativa não é substituir procedimentos cirúrgicos pela oxigenoterapia hiperbárica. A possibilidade investigada é de que o tratamento possa atuar como recurso complementar em reconstruções consideradas mais delicadas, especialmente quando há maior risco de comprometimento da circulação e de hipóxia do tecido. Entre as situações que podem ser objeto de interesse estão reconstruções com retalhos mais finos, como algumas realizadas na região da ponta do nariz.
“Nosso objetivo é auxiliar naquelas reconstruções mais delicadas, em que existe maior risco de hipóxia e comprometimento da circulação”, explica Paiz.
Médico hiperbarista contribui para os protocolos do estudo
Para o médico hiperbarista Fabrício Rech, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica e responsável pelo apoio técnico aos protocolos e ao uso da câmara hiperbárica, a hiperoxigenação proporcionada pelo equipamento pode favorecer mecanismos envolvidos na cicatrização, contribuindo para uma resposta mais rápida e de maior qualidade.
Projeto integra profissionais e acadêmicos de Medicina
O projeto também envolve profissionais e acadêmicos do curso de Medicina da URI. Entre os colaboradores está o médico cirurgião geral e preceptor dos acadêmicos, Dr. Gledson Maia, que participa pelo segundo ano consecutivo dos procedimentos cirúrgicos realizados com as cobaias. Sua atuação inclui a execução das cirurgias e o acompanhamento dos estudantes durante os procedimentos. Segundo ele, a experiência permite acompanhar de perto as dificuldades enfrentadas pelos estudantes durante as atividades e contribuir para sua formação. “É muito bom dividir conhecimento e agregar à formação dos alunos”, destaca o médico.
Participação dos estudantes aproxima pesquisa e formação médica
A participação na pesquisa também tem sido incorporada à formação dos acadêmicos. Entre as estudantes envolvidas estão Luana Milena Bueno Da Cás e Maria Eduarda Pivotto, ambas do quarto ano de Medicina da URI, que atuam à frente do projeto juntamente com outras quatro voluntárias e sob orientação de Paiz.
Para Luana, acompanhar uma pesquisa desenvolvida durante cinco anos aproximou a formação acadêmica da prática da medicina baseada em evidências. “A pesquisa mostrou que desenvolver conhecimento leva tempo, estudo e trabalho conjunto”, afirma.
Maria Eduarda também considera a experiência parte importante de sua formação. “Aprendi que um projeto científico precisa de muitas mãos e muitas mentes para que cada etapa aconteça da melhor forma”, relata.
Trabalho em equipe faz parte do aprendizado dos acadêmicos
A participação dos estudantes envolve diferentes momentos da pesquisa e exige integração entre os integrantes da equipe. Para as acadêmicas, justamente essa construção coletiva está entre os principais aprendizados proporcionados pelo projeto. A experiência permite aos acadêmicos acompanhar desde a execução dos procedimentos até a organização e interpretação dos dados.
Próxima etapa será a análise estatística e elaboração do artigo
Com a conclusão da coleta e das análises, os pesquisadores deverão reunir os resultados macroscópicos, histológicos e dos biomarcadores séricos. Em seguida, será realizada a análise estatística e a consolidação dos dados para a elaboração do artigo científico, que deverá ser submetido a uma revista acadêmica internacional.
Resultados poderão contribuir para novas pesquisas
A publicação permitirá que os resultados sejam avaliados por pesquisadores independentes e comparados com estudos realizados em outros centros. Para a equipe, o objetivo é oferecer uma base experimental que contribua para a compreensão dos mecanismos envolvidos na utilização da oxigenoterapia hiperbárica como tratamento complementar em situações selecionadas de cirurgia reconstrutiva.
Encerramento do projeto abre caminho para novos estudos
Ainda que os resultados obtidos em animais não sejam suficientes para confirmar a eficácia do tratamento em seres humanos, a pesquisa poderá contribuir para a construção de novas hipóteses e para o desenvolvimento de futuros estudos clínicos. O encerramento do projeto, portanto, representa não apenas a conclusão de uma investigação iniciada há cinco anos, mas também a disponibilização de uma base de dados e de protocolos que poderão ser utilizados por outros pesquisadores da URI e de instituições interessadas em aprofundar o tema.
Equipe e colaboradores:
- Dr. Fabio Paiz, cirurgião oncológico, professor titular do curso de Medicina da URI: coordenador e idealizador da pesquisa;
- Dr. Clóvis Klock, patologista-chefe do Grupo Infolaudo e Medicina Diagnóstica: responsável pela análise histopatológica durante os 5 anos;
- Dr. Fabrício Rech, médico hiperbarista e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica: apoio técnico nos protocolos e no uso da câmara hiperbárica;
- Profª Dra. Miriam Wisniewski, coordenadora do curso de Medicina da URI: apoio institucional e disponibilização de recursos;
- Laboratório de Química e Farmácia da URI: processamento das análises dos biomarcadores séricos;
- Luana Milena Bueno Da Cás e Maria Eduarda Pivotto, acadêmicas do quarto ano de Medicina da URI: execução da etapa de 2026, coleta e organização dos dados e avaliação dos resultados macroscópicos, microscópicos e séricos;
- Dr. Gledson Maia: médico cirurgião geral, preceptor dos acadêmicos de Medicina da URI, colaborou voluntariamente no suporte técnico às atividades cirúrgicas experimentais realizadas nos dois últimos anos.