Caro leitor/a: esta coluna será sobre pais e filhos, Javé, Frankenstein, Histórias em Quadrinhos, Jor-El e Kal-El, Renato Russo e os Irmãos Winchester de “Supernatural”, está bem? ‘Bora lá?
"Sinto muito, meu filho..." É o que diz a Kal-El a simulação computadorizada, uma espécie de mensagem holográfica de seu pai, morto quando da destruição de Krypton – simulação com a qual o Superman "dialoga" obsessivamente no interior da Fortaleza da Solidão, no Ártico) -, na parte final da saga "O último filho". Destacada do restante do diálogo em uma página impressionante (desenho de Adam Kubert, é uma pena que não possamos reproduzi-la aqui), a frase assume e expressa um sentido inteiro por si só - ela é início, é meio e é fim. O olhar e a postura do filho são de desamparo; o rosto do pai tem a seriedade grave de quem está dizendo tudo o que há para ser dito.
A página ecoa a Bíblia - Javé e Adão, Javé e Abraão (Bob Dylan: "God say to Abraham 'kill me a son!'"), e ecoa também o Frankenstein de Mary Shelley: a Criatura grita o desespero de seu "por quê? Por quê?" (eu pedi para nascer? O que é isto tudo?) e só obtém como resposta o silêncio indiferente do Cosmos. Ali, entretanto, um p(P)ai mais corajoso reúne forças para enunciar um humilde "sinto muito, meu filho." - e o silêncio, mas um silêncio de compreensão, apesar da tristeza de fundo, paira e envolve o filho, não mais indiferente.
Essa inversão e inclusão de (outros) sentidos lembra a letra da canção "Ao nosso filho, Morena", de Oswaldo Montenegro:(e o Jor-El de “O último filho”, com suas barbas e olhos tristes, se parece um pouco com o Oswaldo Montenegro):
"Se hoje tua mão não tem manga ou goiaba/
Se a nossa pelada se foi com o dia/
Te peço desculpas, me abraça meu filho/
Perdoa essa melancolia
Se hoje você não estranha a crueza/
Dos lagos sem peixe, da rua vazia/
Te olho sem jeito, me abraça meu filho/
Não sei se eu tentei tanto quanto eu podia
Se hoje teus olhos vislumbram com medo/
Você já não vê e eu juro que havia/
Te afago o cabelo, me abraça meu filho/
Perdoa essa minha agonia
Se deixo você no absurdo planeta/
Sem pique-bandeira e pelada vadia/
Fujo do teu olho, me abraça meu filho/
Não sei se eu tentei, mas você merecia..."
E... bem, e agora eu me atrapalhei para concluir este texto, mas acho que disse o que queria dizer. No fim, é tudo sobre pais, mães e filhos. Como em Édipo-Rei, Hamlet, Tarzan... Em uma outra HQ, uma série da Liga da Justiça intitulada “Torre de Babel”, a Mulher-Maravilha pergunta “na lata” para um Batman ressentido, amargo e envelhecido: “Quantas vezes você sonhou em ouvir a voz de seu pai de novo? Ou sentir o toque de sua mãe?”
Na verdade, há mais uma coisa que um pai pode dizer a um filho, abraçando-o e beijando-lhe a cabeça: o "dorme agora: é só o vento lá fora", de Renato Russo. Ou com John Lennon: “Feche os olhos, não tenha medo/ O monstro fugiu, foi embora/ E o pai está aqui”. Mas, como sabem muito bem os irmãos Dean e Sam Winchester, que do pai só têm a memória e o diário, esse barulho todo (o barulho deste absurdo planeta, Camus?) pode não ser, infelizmente, só o vento lá fora.