O câncer de mama está entre os principais tipos de câncer que atingem as mulheres e pode surgir em diferentes idades. No Brasil, segundo as médicas oncologistas Daniela Cavalli e Adriana Wilk, do Instituto Bravora, cerca de 80 mil novos casos são registrados por ano.
Para Daniela, um dos principais desafios está na identificação da doença em estágio inicial. “Quanto mais cedo nós identificarmos a doença, menos agressivos são os tratamentos e maiores são as chances de cura”, afirma. Segundo ela, mais de 40% dos casos chegam ao diagnóstico em estágios avançados.
A evolução dos métodos diagnósticos e das terapias, porém, modificou o cenário do tratamento. Hoje, o câncer de mama é dividido em diferentes subtipos, e a escolha da terapia considera as características de cada tumor.
Idade, hormônios e histórico familiar estão entre os fatores de risco
Os fatores associados ao câncer de mama são divididos entre aqueles que podem ser modificados e os que não podem. A idade é considerada um dos principais fatores não modificáveis. A exposição aos hormônios femininos ao longo da vida também interfere no risco.
Menstruação muito precoce, menopausa tardia, ausência de gestação e determinados históricos familiares podem estar associados a uma exposição hormonal maior ou a predisposição hereditária.
Também existem fatores relacionados ao estilo de vida. Tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, sedentarismo e alimentação inadequada estão entre os aspectos que podem ser modificados.
“Fator de risco não é determinante do desenvolvimento da doença”, explica Adriana. Segundo a oncologista, o câncer é multifatorial e diferentes elementos podem atuar conjuntamente.
Mudanças de hábitos podem ser adotadas em diferentes momentos da vida, inclusive durante o tratamento. Nesse processo, profissionais de diferentes áreas podem participar do cuidado, como nutricionistas, psicólogos e profissionais responsáveis pela atividade física.
Medicamentos para emagrecimento exigem avaliação médica
O uso das chamadas canetas emagrecedoras também passou a fazer parte das dúvidas levadas por pacientes aos consultórios. Segundo Adriana, estudos recentes avaliaram os efeitos desses medicamentos em pessoas com e sem histórico de câncer de mama.
“As canetas emagrecedoras estão representando um marco na medicina moderna e a gente usa emagrecedora entre aspas, entre muitas aspas porque o emagrecimento é uma consequência”, afirma.
A médica ressalta que esses medicamentos têm indicações específicas e não devem ser utilizados de forma indiscriminada por pacientes oncológicos.
“Nós, oncologistas, recebemos a notícia com muita felicidade porque é mais uma medicação que a gente pode usar no arsenal, junto com medidas não farmacológicas, que são essas mudanças de estilo de vida associados a terapias inovadoras para prolongar e eventualmente para atingir níveis de erradicação, de eliminação do câncer da vida dessas pessoas”, comenta Adriana.
Daniela ressalta que o momento de introdução do medicamento também precisa ser considerado. “Existe uma indicação precisa para isso, para as pacientes que tem necessidade realmente, que isso pode influenciar na doença, mas varia muito o momento também, não é em todos os momentos que ela deve ser utilizada.”
Adriana resume a necessidade de acompanhamento profissional: “Acho que tudo que nós falarmos aqui, a gente tem que ter como premissa básica, que é sob orientação médica, não é um serviço de self-service. Se os pacientes querem ter os melhores resultados, eles devem procurar a orientação de uma equipe que saiba o que está fazendo, tanto médicos, quanto a equipe multiprofissional adequada”.
Reposição hormonal precisa considerar riscos individuais
A relação entre hormônios e câncer de mama também exige avaliação individual. O estrogênio e a progesterona participam do desenvolvimento do organismo feminino e a exposição a esses hormônios ao longo da vida pode influenciar o risco.
No caso dos anticoncepcionais, Daniela explica que existe aumento de risco, mas que o impacto absoluto é pequeno para mulheres jovens. “O anticoncepcional aumenta o risco, mas é um risco mínimo. Quando a gente avalia o risco absoluto daquelas mulheres, especialmente mulheres jovens que fazem isso, isso representa um risco muito pequeno de acréscimo em comparação ao benefício que é a mulher poder ter a sua vida sexual ativa e poder decidir quando ela quer engravidar.”
Na menopausa, a reposição hormonal pode ser considerada em situações específicas, levando em conta sintomas, tempo de exposição, tipo de hormônio utilizado e características individuais e familiares.
“Ele pode ser usado quando bem indicado, mas sempre por um profissional adequado”, afirma Daniela.
As médicas também fazem uma distinção em relação aos chamados “chips da beleza”, implantes que podem conter hormônios como testosterona e gestrinona. Segundo Adriana, não há comprovação de eficácia para as finalidades estéticas atribuídas a esses produtos, e a questão exige cautela.
Sinais persistentes devem ser investigados
Embora a idade seja um dos principais fatores de risco, mulheres jovens também podem desenvolver câncer de mama. A presença de alterações persistentes deve motivar avaliação médica, independentemente da faixa etária.
Entre os sinais citados pelas oncologistas estão caroço na mama ou na axila, alterações na pele, inversão do mamilo, lesões na região da aréola, secreção pelo mamilo e mudanças repentinas no tamanho ou na consistência da mama.
“Isso é diretamente relacionado às questões de estilo de vida, mas existe também, as questões genéticas que podem afetar as mulheres, especialmente as mulheres mais jovens para o câncer de mama”, afirma Adriana.
“Esses são os sinais que compõem alertas para a presença, isso não só para mulher jovem, mas para qualquer outra faixa etária, de que algo esteja acontecendo”, acrescenta.
Mamografia continua sendo principal exame de rastreamento
A mamografia permanece como o principal exame utilizado no rastreamento do câncer de mama. De acordo com Daniela, o Ministério da Saúde recomenda o rastreamento a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos, quando não há alterações no exame. A avaliação pode ser individualizada conforme os fatores de risco.
O conhecimento do próprio corpo também é importante, mas não substitui a mamografia nem é considerado um método formal de rastreamento.
“O auto exame ele não é mais recomendado como um exame de rastreio formal, mas o conhecimento do próprio corpo, nós sabermos avaliar quando tem alguma coisa alterada nas mamas, quando aparece um nódulo, um caroço, uma alteração persistente”, explica Daniela.
A médica diferencia rastreamento de investigação diagnóstica. O primeiro é realizado em pessoas sem sintomas para identificar alterações antes da manifestação clínica. Já diante de um sinal suspeito, deve ser iniciada uma investigação independentemente da idade.
“Se é uma mulher de 20, 30 anos que tem uma queixa, ela não deve esperar nem esperar o Outubro Rosa e nem esperar ter a faixa etária que é recomendada pelo Ministério da Saúde para prosseguir a investigação”, afirma.
Histórico familiar não é obrigatório para o surgimento da doença
Ter parentes com câncer de mama pode indicar uma predisposição hereditária, mas a ausência de casos na família não elimina o risco. Segundo Adriana, mulheres sem histórico familiar também podem desenvolver a doença.
A oncologista cita estimativa de risco ao longo da vida de aproximadamente 9% a 12% para mulheres sem histórico familiar. Em determinados casos de mutações hereditárias, esse percentual pode ser significativamente maior.
Os genes BRCA1 e BRCA2 estão entre os mais conhecidos por sua relação com predisposição hereditária ao câncer de mama e de ovário. Mulheres portadoras dessas alterações podem apresentar risco elevado de desenvolver câncer de mama ao longo da vida.
A investigação de uma possível síndrome hereditária considera não apenas casos de câncer de mama, mas também ocorrências de câncer de ovário, pâncreas, próstata, endométrio, trompas e outros tumores em diferentes gerações da família.
“Então veja a diferença, uma mulher que não tem histórico familiar tem de 9% a 12% de risco de ter câncer de mama ao longo da vida, enquanto quem tem esse histórico tem de 60% a 80% de chance de chance de desenvolver um tumor de mama”, aponta Adriana.
A avaliação genética pode incluir a construção de um histórico familiar detalhado, com informações sobre diferentes tipos de câncer e os graus de parentesco.
“Saber que você se encaixa em uma família que pode ter essa predisposição hereditária, é sinônimo de uma informação riquíssima para saúde dessa paciente e dessa família”, coloca a médica.
A identificação de uma mutação pode modificar o acompanhamento, antecipar exames e, em determinados casos, orientar estratégias de prevenção e tratamento.
Tratamento passou a ser mais direcionado ao tipo de tumor
Nos últimos anos, o tratamento do câncer de mama incorporou medicamentos direcionados às características biológicas de cada tumor.
Nos tumores que apresentam receptores hormonais, existem medicamentos capazes de interferir nos mecanismos utilizados pelas células tumorais para se multiplicar. Nos casos com superexpressão da proteína HER2, são utilizadas terapias específicas, incluindo os chamados anticorpos conjugados a medicamentos.
Para determinados tumores triplo-negativos, a imunoterapia passou a integrar as possibilidades terapêuticas.
“O maior avanço que nós tivemos é principalmente porque esses medicamentos além deles prolongarem a vida das pacientes, eles são medicações que não dão tantos sintomas quanto as quimioterapias convencionais, por exemplo, e isso permite que a mulher mantenha a qualidade de vida e que possa integrar essas medicações no cotidiano dela”, explica Daniela.
A evolução também envolve medidas destinadas a reduzir os efeitos do tratamento. É o caso da touca de resfriamento do couro cabeludo, utilizada em determinadas quimioterapias para diminuir a queda de cabelo.
“A touca, quando a gente olha assim diante do contexto do câncer ela parece uma coisa pequena, mas para mulher não é uma questão só de estética, é uma questão muito mais dela tentar manter uma normalidade, pois ao se olhar no espelho e se ver sem cabelo, é o momento que ela realmente se sente doente”, afirma Daniela.
Definição do tratamento envolve diferentes profissionais
A escolha da primeira etapa do tratamento depende do estágio e das características do tumor. A avaliação pode envolver mastologista, cirurgião oncológico, oncologista, radioterapeuta, patologista e outros profissionais.
As equipes podem discutir os casos em reuniões multidisciplinares, conhecidas como tumor boards.
Em tumores localizados, a cirurgia pode ser o tratamento inicial, especialmente quando a doença é pequena ou identificada em exames de rastreamento. Em muitos casos, são realizadas cirurgias que preservam parte da mama, seguidas de radioterapia e, conforme o resultado da análise do tumor, tratamentos sistêmicos.
Nos casos localmente avançados, a quimioterapia pode ser utilizada antes da cirurgia para reduzir a doença e facilitar o procedimento. A escolha dos medicamentos depende do subtipo tumoral.
Quando existem metástases, o tratamento passa a considerar o controle da doença e a qualidade de vida. Podem ser utilizados medicamentos sistêmicos, terapias hormonais, terapias-alvo, imunoterapia, quimioterapia e, em situações específicas, radioterapia ou cirurgia.
“A decisão é multiprofissional, multidisciplinar”, afirma Adriana.
Diagnóstico não significa o mesmo prognóstico para todas as pacientes
O câncer de mama não é uma doença única. O prognóstico depende de fatores como tipo do tumor, estágio, características moleculares e resposta ao tratamento.
Nos casos localizados ou localmente avançados, o tratamento é realizado com intenção curativa. Na doença metastática, o objetivo passa a ser controlar o câncer, prolongar a sobrevida e preservar a qualidade de vida.
Para Daniela, a comunicação com a paciente deve equilibrar realismo e perspectiva. “Eu acho importante sempre diferenciar esperança de promessa”.
A médica defende que a paciente conheça o diagnóstico, as alternativas disponíveis e o planejamento terapêutico. O acompanhamento psicológico pode fazer parte desse processo.
“Eu acho que sempre que possível, os pacientes deveriam ter um acompanhamento psicológico associado”, afirma.
Informação também faz parte da prevenção
A identificação de fatores de risco, o acompanhamento médico, o rastreamento adequado e a investigação de sinais suspeitos são algumas das ferramentas disponíveis para enfrentar a doença.
Para Adriana, o conhecimento sobre predisposição genética pode modificar o acompanhamento de uma família inteira. Ela cita como exemplo a atriz Angelina Jolie, que tornou público seu histórico relacionado a uma mutação no gene BRCA.
Segundo a oncologista, a presença de uma alteração genética não significa que a doença necessariamente irá ocorrer, mas pode permitir estratégias específicas de acompanhamento e prevenção.
Além das medidas médicas, as especialistas ressaltam a participação de equipes multiprofissionais durante as diferentes etapas do tratamento.
“Além da informação, além delas não enfrentarem o câncer sozinhas, é que um tumor não define uma vida. Ele pode fazer parte de uma vida, ele é fase de uma vida, mas ele passa. E as mulheres, principalmente, elas não podem ser definidas somente por aquela doença, por aquele tumor que elas tiveram”, coloca Adriana.
Caminhada no Parque Longines Malinowski
No sábado, 17 de outubro, às 9h30, será realizada uma caminhada no Parque Longines Malinowski, com saída pela entrada do parque. A atividade faz parte do projeto Vida em Movimento, do Instituto Bravora, e a participação não é restrita aos pacientes atendidos pelo Instituto, é aberta aos demais pacientes com câncer, familiares e à comunidade em geral.
Durante o percurso, profissionais de diferentes áreas acompanharão o grupo. Uma bióloga apresentará informações sobre a fauna e a flora do parque, enquanto nutricionista, psicóloga e fisioterapeuta participarão da atividade com orientações relacionadas às suas áreas.
As informações sobre a atividade e as orientações para participação serão divulgadas pelo perfil @bravora.instituto, no Instagram.