A prevalência de doenças inflamatórias intestinais (DII) no Brasil aumentou quase 60% em cinco anos, chegando a 158 casos por 100 mil habitantes. Os dados são de uma pesquisa apresentada no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, baseada em informações do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS).
O levantamento atualiza um estudo anterior, referente ao período de 2012 a 2020, quando a prevalência passou de 30 para 100,1 casos por 100 mil habitantes. Considerando o intervalo de 2012 a 2025, o número de casos cresceu mais de cinco vezes. Mantido o ritmo atual, a quantidade de pessoas com DII poderá ser 1,7 vez maior nos próximos dez anos.
Retocolite ulcerativa avança mais
A pesquisa identificou uma mudança na proporção entre os dois principais tipos da doença: a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn. Em 2012, havia 1,5 caso de retocolite para cada caso de Crohn. Em 2025, a relação chegou a 2,1 para um.
Na América Latina, a proporção habitual é de quatro casos de retocolite para cada caso de Crohn. O perfil brasileiro se aproxima mais do observado na Europa e nos Estados Unidos, onde a relação entre as duas doenças é próxima de um para um.
Embora as DII estejam aumentando em todo o mundo, o crescimento brasileiro é mais acelerado. Pesquisadores investigam a influência de fatores ambientais, sociais e assistenciais nesse cenário.
Alimentação e fatores ambientais
As causas das DII são multifatoriais. A predisposição genética está presente em parte dos pacientes, enquanto alterações na microbiota intestinal, mudanças alimentares, perda de biodiversidade e exposição a agentes ambientais, como defensivos agrícolas, também podem estar envolvidas.
O estresse não é considerado causa direta, mas pode agravar os sintomas e favorecer crises em pessoas que já têm a doença.
Desigualdade no diagnóstico
As maiores prevalências foram registradas nas regiões Sul e Sudeste. São Paulo lidera, com 278 casos por 100 mil habitantes, seguido pelo Paraná, com 251, e por Santa Catarina, com 204. Norte e Nordeste apresentam taxas menores, diferença que pode estar relacionada, em parte, às dificuldades de acesso ao diagnóstico.
A colonoscopia é um dos principais exames para identificar as DII, mas o tempo de espera varia entre as regiões. Enquanto em Santa Catarina o procedimento pode ser realizado em dois ou três meses, em áreas do Norte a espera pode chegar a um ano.
Outro recurso é a calprotectina fecal, exame incorporado à rede pública em 2024 e incluído na tabela de procedimentos do SUS em julho de 2025.
Custos e desafios para o SUS
O Brasil oferece medicamentos biológicos para pacientes com retocolite ulcerativa e doença de Crohn, mas o acesso depende da confirmação diagnóstica. A dificuldade para realizar exames pode atrasar o início do tratamento.
Como as DII geralmente são diagnosticadas em pessoas jovens e não têm cura, exigem acompanhamento por décadas. Os medicamentos mais modernos podem custar até R$ 500 mil por ano, ampliando a pressão sobre o sistema público e os planos de saúde.
O crescimento dos casos também levanta preocupações sobre a subnotificação. Parte dos pacientes pode conviver com sintomas sem diagnóstico, atribuindo diarreia, sangramento e perda de peso a infecções, intolerâncias alimentares ou indisposições passageiras.
Diante do avanço da prevalência, especialistas alertam para a necessidade de rever o planejamento da assistência, ampliar o acesso aos exames e preparar os serviços de saúde para uma demanda crescente.